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Notícias Não basta informação, é preciso ação

Endocrinologista e membro do Departamento de Novas Terapias da SBD, Márcio Krakauer tem uma opinião firme e polêmica em relação à falta de adesão ao tratamento do diabetes.

Bianca Fiori | 28/06/2017

Não basta informação, é preciso ação

Endocrinologista e membro do Departamento de Novas Terapias da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), Márcio Krakauer tem uma opinião firme e polêmica em relação à falta de adesão ao tratamento do diabetes. Segundo ele, acesso a medicamentos, insumos e informação é importante, mas não são suficientes para tratar a disfunção. “Se o diabetes também fosse relacionado ao óbito, à amputação, à impotência ou à cegueira, sem dúvida, isso despertaria a atenção das pessoas e faria mais pacientes aderirem ao tratamento”, diz. Na entrevista a seguir, o médico explica sua visão baseada em casos reais que acompanha em seu consultório.

Momento Diabetes: Uma pesquisa recente* revelou que 92% dos brasileiros reconhecem a importância da atividade física aliada a uma alimentação saudável para o controle do diabetes. Entretanto, 64% dos entrevistados não praticam nenhum tipo de exercício e o número de pessoas com diabetes tipo 2 não para de aumentar no Brasil e no mundo. A quais fatores o senhor associa esse cenário, já que informação existe? 

Dr. Márcio Krakauer: Informação existe até certo ponto, mas o principal ainda não. Falta transformação, ação, atitude. A mensagem de que o diabetes é uma doença grave, silenciosa, que pode ser diagnosticada com um simples teste de glicemia está sendo passada, mas infelizmente a população não toma uma atitude importantíssima, que é fazer o exame. Acredito que existem vários motivos para que isso ocorra. Por exemplo, a maioria dos indivíduos acha que se fizer o exame e for diagnosticado o diabetes não poderá mais comer doce, o que é um grande mito. Há também o medo de ficar cego ou sofrer amputações e posso acrescentar ainda que as pessoas não querem dedicar uma parte de seu tempo em atividades ou hábitos que ajudarão a prevenir o diabetes ou os problemas decorrentes do mau controle.

A má informação também pode ser responsável pelo aumento de casos de diabetes?

Dr. Krakauer: Acredito que sim. Há informação de má qualidade e, principalmente, em pouca quantidade. dade. Nós médicos, educadores em diabetes e demais profissionais da área da saúde ainda não sabemos como passar as informações corretamente, visando atingir o maior número de pessoas possível, e com qualidade, para que elas tomem as decisões certas para se cuidar melhor. Isso é um grande desafio.

O que é mais importante no tratamento do diabetes?
Dr. Krakauer: Engajamento, comprometimento e motivação do próprio paciente em relação ao diabetes. Acredito que estes três itens, juntos, formam um novo pilar para o tratamento da doença, ao lado dos outros pilares que já conhecemos: educação em diabetes, prática de atividade física, alimentação saudável e uso de medicação. Quando a pessoa está motivada, comprometida e recebe a informação de um profissional capacitado, ela consegue transformar essa informação em uma atitude positiva para controlar melhor a doença.

Por que as pessoas têm dificuldade em aderir ao tratamento?

Dr. Krakauer: Porque a adesão depende de vários fatores, entre eles informação, educação, motivação e até financeiro. Muitas vezes a pessoa adere ao tratamento, mas não consegue mantê-lo por muito tempo. Além disso, não podemos deixar de lado as questões emocionais, que envolvem os mitos em torno do diabetes e acabam afastando os pacientes do tratamento real e seguro.

Muita gente ainda subestima a seriedade da doença. No entanto, se não houver controle, o diabetes pode levar a vários problemas e, consequentemente, à morte. Se o assunto fosse abordado de forma mais dura e realista, os diabéticos passariam a se cuidar mais?

Dr. Krakauer: Eu acredito piamente nisso observando minha trajetória nas campanhas de prevenção e conscientização sobre o diabetes e comparando com outras ações, como campanhas contra o tabagismo. Depois que os maços de cigarros começaram a trazer imagens aterrorizantes dos efeitos provocados pelo hábito de fumar, houve uma redução muito grande no número de fumantes no mundo todo nos últimos anos. Outro exemplo: quem recebe o diagnóstico de câncer, seja qual for o tipo, logo lembra que ele pode matar. Esta ideia já está estigmatizada. Se o diabetes também fosse relacionado ao óbito, à amputação, à impotência ou à cegueira, sem dúvida, isso despertaria a atenção das pessoas e faria mais pacientes aderirem ao tratamento. Se os diabéticos entrassem em contato com a perda e a dor que a doença pode causar, sem dúvida, ficariam mais atentos.

Falando um pouco sobre tecnologia, o pâncreas artificial e as bombas de infusão de insulina da nova geração dispensam a intervenção do paciente no manuseio do aparelho, já que o sistema identifica hipoglicemia e suspende automaticamente a ação do hormônio. Como o senhor avalia esse avanço tecnológico, uma vez que existe o risco de o aparelho dar problema?

Dr. Krakauer: A máquina será uma grande aliada da pessoa motivada e comprometida com o tratamento. Porém, eu nunca deixaria 100% do tratamento sob a responsabilidade dela. Vamos tomar como exemplo o aplicativo de trânsito Waze. Ela calcula o caminho mais curto e mais rápido. Porém, muitas vezes, são percursos inseguros, que podem ser perigosos. Ou seja, cada um de nós tem que tomar conta do próprio caminho para não cair em ciladas.

Na sua opinião, estamos perto da cura do diabetes ou isso é utopia?

Dr. Krakauer: Acredito que estamos chegando muito próximo de um melhor controle do diabetes tipo 1, o que significa uma hemoglobina glicada melhor, com menos hipoglicemia. Não é utopia, a cura está a caminho, embora não haja previsão de quando.

Que mensagem pode deixar para quem acabou de descobrir que tem diabetes?

Dr. Krakauer: Existe vida depois do diabetes. Meu primeiro conselho é: procure alguém que tenha diabetes e já ultrapassou as primeiras fases pós-diagnóstico, que envolvem o medo, os mitos e as dificuldades do tratamento. Busque também a ajuda de profissionais competentes e comprometidos com a causa. Superada essa primeira fase de medo e inseguranças, tudo caminhará tranquilamente.

*Conduzida pelo Ibope a pedido da farmacêutica Merck, a pesquisa foi divulgada em novembro de 2016 com o apoio da Sociedade Brasileira de Diabetes. Foram entrevistados 2.002 brasileiros maiores de 16 anos, em 142 municípios.

 

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