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Comportamento Mudança de ares e de atitude

Thaís foi longe em busca do sonho de uma vida melhor. Na Austrália, onde mora há quatro anos, ela aprendeu inglês, abriu uma empresa, superou preconceitos e assumiu a responsabilidade sobre o
próprio diabetes

| 02/08/2017

Mudança de ares e de atitude

“As dificuldades da vida fortalecem a gente”. Com esta frase, a paulista Thaís dos Santos Cardoso, 30 anos, resume sua trajetória pessoal, marcada por muito esforço, altos e baixos da glicemia, alguns tristes episódios de discriminação e superação. Muita superação. Cansada do trabalho na cidade natal de São Caetano do Sul, em 2012, ela resolveu dar um novo rumo à própria vida. Pesquisou informações sobre a Irlanda e o Canadá, mas o clima frio e rigoroso dos dois destinos pesou na decisão. Por fim, escolheu a cidade de Perth, no estado de Western, na Austrália, para fazer um intercâmbio.

 

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Embora seja isolada de tudo (Adelaide, a cidade grande mais próxima, está a cerca de 2.000 quilômetros de distância), Perth compensa pelas lindas paisagens, pelo sossego e pelo custo de vida – cerca de 20% menor do que Sydney, por exemplo. Banhada pelo oceano Índico, no extremo oeste do país, Perth tem praias exuberantes, museus, galerias de arte, parques, além de ficar próxima a ilhas deslumbrantes, como Rottnest, que Thaís tem certeza ser “o lugar mais lindo de todos”.

Com 1,5 milhão de habitantes e poucos brasileiros, Perth pode ser um bom lugar para estrangeiros, como Thaís, aprenderem o idioma e viver de forma independente. “Até me mudar para cá, eu nunca havia saído do Brasil. Nesses quatro anos, montei uma microempresa que presta serviços de limpeza e tenho alguns clientes. Fiz aulas de inglês, um curso técnico de negócios e atualmente faço outro curso técnico em hospitalidade”, conta. “Mas minha maior conquista, com certeza, foi assumir o controle sobre o meu diabetes.”

Diagnosticada aos 15 anos de idade, a jovem não se cuidava muito bem quando vivia no Brasil e a glicemia, vira e mexe, ficava descompensada. O primeiro ano na Austrália seguiu a mesma tendência. “É costume aqui comer muita salada e lanche na hora do almoço. O feijão é enlatado e o sabor, horrível! No início, eu me alimentava muito mal. Comia fast food quase todos os dias. Não deu outra, engordei bastante”, lembra. Os altos e baixos glicêmicos começaram a prejudicar o rendimento de Thaís no trabalho e ela tomou consciência de que precisava controlar o diabetes. “Depois que coloquei a bomba de infusão de insulina, meu controle melhorou. Posso comer de tudo, porque faço contagem de carboidratos. Aprendi a cozinhar e isso facilitou muito as coisas! Gosto de vegetais, frango e adoro iogurtes. Às vezes preparo um dos pratos principais da culinária australiana, o fish and chips (filé de peixe empanado com fritas), mas não sou muito fã”.

Medicamentos e insumos
Antes de embarcar nessa viagem, Thaís fez um estoque de insulina e insumos para levar e, chegando em Perth, descobriu que a ideia foi boa. “Não importa se você usa seringa,
caneta ou bomba de insulina, o tratamento do diabetes aqui é pago. Se você se torna um australiano, tem direito a descontos maiores no medicamento, mas não há distribuição gratuita como no Brasil”, lamenta. Até hoje, a família dela envia pelos Correios, periodicamente, todos os insumos que a jovem precisa. Além do custo do tratamento, a jovem formada em Turismo também sentiu diferença no atendimento médico. Ao passar pela primeira vez em uma consulta com o GP (general practitioner), Thaís se surpreendeu com a recomendação do clínico geral. “O médico me disse que era um absurdo eu usar bomba de insulina e me orientou a voltar para o meu primeiro tratamento: a insulina NPH e a regular. Na hora agradeci, mas nunca mais voltei nele”, lembra. Para não se sentir tão insegura em relação ao controle do diabetes, ela troca mensagens com a endocrinologista brasileira por celular e e-mail e, às vezes, envia os resultados do exame para tirar dúvidas. Quando vem ao Brasil, a cada ano, aproveita para fazer um check-up. “Não troco a minha médica brasileira por nada nesse mundo”, declara.

Respirando fundo
Desde que chegou na Austrália, Thaís conheceu apenas três pessoas com diabetes, todas brasileiras. Ela não esconde que tem a doença, e, muitas vezes, precisa lidar com as reações negativas dos outros. “Alguns me olham como se eu fosse um E.T.; outros fazem cara de piedade e só faltam dizer ‘coitada, tão nova; vai morrer logo’. Mas eu não ligo e sempre tento explicar que posso comer e fazer de tudo”, diz. Porém, há situações extremas, como ser dispensada ou recusada para um trabalho por ter diabetes. Thaís se recorda bem da cena mais triste que experimentou em solo estrangeiro, quando foi impedida de participar de uma atividade na escola. “Não colocaram na minha ficha escolar que eu era diabética e, mesmo com a carta da minha médica me autorizando a participar da atividade, fui proibida, me humilharam e me magoaram. Nessa época, confesso, eu quis voltar para o meu país”. Em vez disso, Thaís respirou fundo, manteve o foco na motivação que a levou para terras tão distantes de onde nasceu e viveu a vida toda e repete, todos os dias, um mantra de sua autoria: “Nós é que decidimos para onde voar e onde pousar. Não são os outros nem será o diabetes.”

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“Nós é que decidimos para onde voar e onde pousar. Não são os outros nem será o diabetes.”

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