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Entrevistas Remissão do diabetes tipo 2 é possível? Médico explica no livro “Diabetes OFF”

Por Priscila Horvat* O que você imagina quando ouve, ou lê, a expressão “diabetes off”? Automaticamente, o “off” remete a algo sendo desligado. Mas, falando em diabetes, […]

Momento Diabetes | 30/07/2026

Por Priscila Horvat*

O que você imagina quando ouve, ou lê, a expressão “diabetes off”? Automaticamente, o “off” remete a algo sendo desligado. Mas, falando em diabetes, fica a pergunta: é possível simplesmente “desligar” uma doença, ainda mais sendo considerada crônica? É justamente a partir desta provocação que o endocrinologista e metabologista Dr. Wild Cavalcante lança o livro “Diabetes OFF”, uma obra que reúne sua experiência clínica e pessoal para discutir a remissão do diabetes tipo 2 e o papel das mudanças no estilo de vida no tratamento da doença.

Na publicação, o médico apresenta um método baseado em ciência, tecnologia, mudança de comportamento e educação em saúde, defendendo que o diagnóstico pode representar um ponto de virada para muitos pacientes. Em entrevista exclusiva para a Momento Diabetes, realizada pela editora-chefe da revista, a jornalista Letícia Martins, o autor explica o significado do título do livro, fala sobre remissão, alimentação, uso de medicamentos e compartilha a mensagem que espera deixar aos leitores. Acompanhe:

O autor Wild Cavalcante concede uma entrevista exclusiva à Momento Diabetes. Foto: Divulgação

O autor Wild Cavalcante concede uma entrevista exclusiva à Momento Diabetes. Foto: Divulgação

Bate-papo com o autor

Letícia Martins: “Diabetes OFF” é um título provocador, que pode levar muitas pessoas a acreditar que é possível simplesmente “desligar” o diabetes tipo 2. Qual é a principal mensagem que você pretende transmitir com esse título?

Dr. Wild Cavalcante: “A mensagem é essa mesma! Há um caminho para desligar a doença. E o título ‘Diabetes OFF’ é justamente um convite para mudarmos a forma como enxergamos o diagnóstico. Não prometo um milagre, mas um caminho concreto para interromper o avanço do diabetes tipo 2. O diagnóstico não precisa ser uma sentença definitiva de complicações.

O ‘OFF’ simboliza a interrupção do ciclo metabólico que mantém o problema ativo: o excesso de gordura visceral, a resistência à insulina e os hábitos que degradam a saúde ao longo do tempo. Meu objetivo é devolver ao leitor o protagonismo, mostrando que, com a estratégia correta e mudanças reais de rota, é possível sair do piloto automático e buscar a remissão com responsabilidade e consciência”.

Letícia Martins: Para quem o senhor escreveu este livro?

Dr. Wild Cavalcante: “Escrevi este livro para quem recebeu o diagnóstico de diabetes tipo 2 ou pré-diabetes e se sente assustado, temendo um futuro sem saúde. É para quem não quer apenas viver controlando números ou conviver com o medo, mas para quem deseja entender o que acontece no próprio corpo.

Minha intenção é mostrar que o diagnóstico é um ponto de virada. Quanto mais cedo o paciente compreende que possui ferramentas de ação, maior a chance de mudar o rumo da doença. Após 20 anos acompanhando mais de 20 mil pessoas, percebi que a maior dificuldade enfrentada não é a falta de remédios, mas a falta de informação estratégica. Este livro nasce para preencher essa lacuna e transformar o medo em um plano de ação para uma vida mais plena”.

Letícia Martins: O que exatamente significa estar em remissão do diabetes? Isso quer dizer que a pessoa deixou de ter diabetes? E qual é a diferença entre remissão, reversão e cura?

Dr. Wild Cavalcante: “Na medicina, usamos o termo remissão para descrever quando uma pessoa mantém os níveis de glicose no sangue saudáveis por pelo menos três meses sem nenhuma medicação. Não podemos chamar de cura por se tratar de uma condição crônica que exige cuidado constante. Também evitamos o termo reversão por ser impreciso: ele pode sugerir, falsamente, que o acompanhamento médico pode ser abandonado após a melhora dos indicadores.

Na prática clínica, porém, o sucesso vai além dos rótulos. Muitos pacientes, por características biológicas próprias, não chegam a eliminar 100% da medicação, mas realizam algo grandioso ao sair de doses elevadas de insulina para doses mínimas. Essa mudança, alcançada com esforço e estratégia, é um ato de coragem e a prova de que o paciente assumiu o comando da própria saúde. Quem atinge esse patamar impediu o avanço das complicações e provou que é capaz de ditar o ritmo da sua história”.

Letícia Martins: Como um paciente sabe que alcançou a remissão? Existem critérios científicos bem definidos?

Dr. Wild Cavalcante: “A ciência define a remissão pela manutenção da hemoglobina glicada abaixo de 6,5% por três meses sem medicação hipoglicemiante. Em meu consultório, entretanto, trabalho com um objetivo mais ambicioso: a normalidade metabólica plena. Busco, junto com meus pacientes, atingir uma glicada abaixo de 5,7%, que é o patamar de uma pessoa sem diabetes.

Além dos exames laboratoriais tradicionais, utilizo o monitoramento contínuo da glicose, que permite enxergar o que acontece com a glicemia em tempo real ao longo do dia. Essa tecnologia é um poderoso instrumento de mudança comportamental: ela ajuda o paciente a entender como o corpo reage a cada estímulo, seja a alimentação, o sono, o treino, o estresse ou a inflamação, garantindo a segurança necessária para que ele conquiste e mantenha esse novo patamar de saúde com confiança”.

Letícia Martins: Sua trajetória como pesquisador da remissão do diabetes começou de forma bastante pessoal, já que você utilizou a própria experiência como ponto de partida. Como surgiu a decisão de transformar a si mesmo em um “voluntário” desse processo? E o que essa vivência acrescentou à sua prática médica?

Dr. Wild Cavalcante: “Sou endocrinologista e metabologista, e atuei como educador em diabetes. A atuação como delegado da Sociedade Brasileira de Diabetes, o trabalho em pesquisas multicêntricas e a vivência em regiões remotas como consultor do antigo Hiperdia revelaram uma falha sistêmica grave: a inércia terapêutica vai muito além da prescrição de medicamentos. Percebi que o sistema negligencia pilares fundamentais ao não tratar o paciente em sua integralidade.

Mergulhei também no universo da eHealth, das tecnologias aplicadas à saúde, muito antes de as inteligências artificiais dominarem o debate e antes de a telemedicina se consolidar como a conhecemos hoje. Esse olhar antecipado sobre como a tecnologia pode transformar o cuidado clínico moldou profundamente a forma como enxergo o paciente.

O ponto de virada ocorreu aos 35 anos, quando me deparei com o meu próprio diagnóstico de pré-diabetes, obesidade e dislipidemia. Aquele momento foi o ponto de partida para romper paradigmas e entender que a remissão exige uma abordagem que integra ciência, tecnologia e comportamento e, fundamentalmente, os pilares da saúde emocional e espiritual. Não negligencio o poder da fé: compreendo que o tratamento precisa abraçar o ser humano em sua totalidade.

O nome Diabetes OFF surgiu de um sonho, como uma missão de vida que transcende este livro, que é apenas a ferramenta inicial de um propósito maior. Reservo os detalhes de como superei essa condição para as páginas iniciais da obra, pois quero que o leitor descubra essa jornada enquanto compreende que é possível assumir o comando da própria saúde.

Acredito, ainda, ser encorajador para o leitor aprender com alguém que viveu e vive a mesma condição. Sou meu primeiro caso de remissão, seguido de dezenas de pacientes, e continuo desfrutando dela porque continuo trabalhando nos pilares apresentados neste livro ao longo de todos esses anos”.

Letícia Martins: Em determinado momento do livro, você compara o tratamento convencional do diabetes a um ventilador que dispersa a fumaça, enquanto a verdadeira solução seria apagar o fogo. Na sua visão, o principal problema está na baixa adesão dos pacientes às mudanças de estilo de vida ou nas estratégias terapêuticas tradicionalmente adotadas?

Dr. Wild Cavalcante: “O problema está no modelo, não no paciente. O sistema treinou o médico para ver o medicamento como primeira e quase única resposta, o que resulta em uma medicina que dispersa a fumaça sem apagar o fogo. Quando o paciente chega com determinado nível de glicemia, o caminho quase automático é a prescrição. Ao fazer isso, suprimimos o sintoma sem dar ao metabolismo a chance real de se reequilibrar.

Isso não significa que a medicação seja o problema. Ela é um pilar vital que salva vidas, e as novas classes terapêuticas representam uma tecnologia com perfis de segurança impressionantes. O que combato é a comodidade de se restringir a ela, acreditando que a solução é exclusivamente medicamentosa. Quando prescrito com habilidade, o medicamento pode ser o início de um processo que conduz à remissão. Mas ele é apenas um dos componentes de um arsenal muito mais amplo.

Por isso, incluí no livro um protocolo passo a passo em que qualquer ajuste medicamentoso é realizado com segurança, transparência e comunicação direta com o médico assistente. Incluí também uma carta profissional voltada ao médico e à família, que viabiliza essa transição de forma ética e segura”.

Letícia Martins: O livro tem uma proposta muito prática, quase como um manual de aplicação diária. Entre todas as ferramentas apresentadas, qual você considera mais importante para quem está se sentindo perdido, frustrado ou sem esperança diante do diagnóstico?

Dr. Wild Cavalcante: “O livro não é apenas uma obra de leitura: é um sistema de aplicação prática que nasceu da minha vivência clínica e da validação de um curso on-line sobre remissão, onde pude observar, na prática, o que realmente transforma a vida do paciente. Como educador em diabetes, compreendi que a medicina tradicional muitas vezes aponta o caminho, mas falha em conduzir e em sentir o paciente.

Para preencher essa lacuna, busquei na ciência do comportamento, especialmente nas bases de Aaron Temkin Beck e na vasta literatura de Judith Beck, o suporte necessário para criar um método de condução estruturado. Como não havia um arcabouço focado especificamente no diabetes tipo 2, adaptei essas ferramentas consagradas e desenvolvi soluções inéditas, unindo o que há de mais robusto na Medicina do Estilo de Vida a esse rigor comportamental.

A ferramenta que mais destaco é o VOMDE. Costumo dizer que, se todos os meus pacientes aplicarem o VOMDE, eles levarão esse método para a vida toda. Ele é a ponte essencial entre o nível de consciência e a ação, transformando conhecimento técnico em autonomia real e permitindo ao paciente identificar padrões, superar frustrações e assumir, de fato, o comando da própria remissão”.

Letícia Martins: Durante a leitura, encontramos informações que surpreendem até pessoas que convivem com o diabetes há muitos anos. Sem revelar todos os segredos do livro, poderia compartilhar uma descoberta ou conceito que costuma causar maior impacto nos leitores?

Dr. Wild Cavalcante: “O conceito que mais impacta, e que muitas vezes deixa até colegas médicos em choque, é a desconstrução da crença de que o diabetes tipo 2 é necessariamente progressivo e inevitável. Prova disso está na própria contracapa do livro, onde um médico que teve diabetes tipo 2 e alcançou a remissão assina seu depoimento. A história dele é real, marcante e resume tudo o que defendo: é possível mudar o rumo da doença quando se tem a estratégia certa.

Outro ponto que gera um impacto profundo é a constatação de que, mesmo em ambiente hospitalar de alta gravidade, o sistema frequentemente falha no suporte metabólico: serve biscoitos processados e sucos que perpetuam a desregulação glicêmica do próprio paciente internado. Se o ambiente criado para promover a recuperação não colabora com o controle, precisamos quebrar essa narrativa e assumir uma nova postura.

Também abordo uma questão que inquieta muita gente: por que pacientes que realizaram cirurgia bariátrica ou que utilizaram medicamentos modernos apresentam, com o tempo, reganho de peso e retorno dos níveis glicêmicos? A resposta é que essas intervenções, embora potentes, podem não ser sustentáveis sem uma mudança estrutural de comportamento. O que busco é alcançar justamente as pessoas que ainda acreditam que existe uma saída e que desejam retomar o comando da própria história”.

Letícia Martins: Você utiliza o termo “mundo diabetógeno”, que desperta bastante curiosidade. O que caracteriza esse ambiente? Estamos vivendo em uma sociedade que favorece o surgimento do diabetes e dificulta a adoção de hábitos saudáveis?

Dr. Wild Cavalcante: “O universo diabetógeno é um cenário estruturalmente programado para favorecer a desregulação metabólica. Ele não se resume ao que colocamos no prato: é um ecossistema complexo, composto por fatores comportamentais, sociais, ambientais e pela exposição crônica a disruptores endócrinos, que molda a nossa biologia de forma silenciosa e contínua.

O perigo desse cenário reside justamente na sua natureza invisível. Ele atua diretamente na nossa epigenética, ativando predisposições ao diabetes tipo 2 e à resistência à insulina enquanto estamos imersos no ritmo frenético da vida moderna. Muitas vezes, tratamos o paciente como o único responsável por sua condição, ignorando que ele opera dentro de um ambiente desenhado para favorecer a doença.

Sob essa perspectiva, o diabetes tipo 2 deixa de ser uma falha individual e passa a ser compreendido como a consequência natural da exposição contínua a esses fatores. Enquanto não enxergarmos as engrenagens desse cenário, continuaremos combatendo sintomas sem jamais atingir a verdadeira causa”.

Letícia Martins: A alimentação ocupa papel central na sua abordagem. Um dos pontos que mais chama atenção é a afirmação de que o carboidrato não é um nutriente essencial para a sobrevivência humana. Como interpretar essa informação? A proposta é reduzir, controlar ou eliminar os carboidratos da alimentação?

Dr. Wild Cavalcante: “A resposta não é simples, e é por isso que há um trecho considerável do livro dedicado a explicar essa questão. Mas podemos resumir assim: carboidratos são importantes quando provenientes de fontes naturais e consumidos com controle de quantidade, qualidade e contexto. O ponto central é que os carboidratos se convertem integralmente em glicose no sangue. Então, para um paciente com intolerância à glicose, como é o caso de quem tem diabetes, faz todo sentido reduzir essa carga.

Quando reduzimos os carboidratos em uma dieta inteligente e bem balanceada, com as proporções adequadas de proteínas e gorduras, o organismo passa a gerar energia por outras vias metabólicas. Dietas low carb e cetogênicas são, por isso, excelentes estratégias de controle glicêmico. No entanto, a individualidade sempre determina o que é possível e sustentável para cada pessoa.

Proteínas e gorduras, diferentemente dos carboidratos, cumprem funções essenciais ao organismo e não podem ser reduzidas de forma indiscriminada sem prejuízo à saúde. Mas, para finalizar, não há espaço para terrorismo alimentar nessa abordagem. Trabalhando os passos apresentados no livro, com individualização e modulação do comportamento alimentar, o leitor não precisa encarar isso como uma privação. Meus pacientes com maiores resultados seguem algum tipo de dieta low carb e, não, não sofrem por essa escolha. Ela se torna natural”.

Letícia Martins: Muitos profissionais defendem o início precoce do tratamento medicamentoso para diabetes e pré-diabetes. No entanto, você enfatiza fortemente as mudanças no estilo de vida antes da prescrição de medicamentos. Por que acredita que esse caminho merece ser priorizado?

Dr. Wild Cavalcante: “Priorizar o estilo de vida não significa ignorar as diretrizes clínicas ou os algoritmos de tratamento: significa expandir a nossa definição do que é uma ferramenta terapêutica. Por décadas, a medicina foi condicionada a ver o algoritmo como um atalho direto para a prescrição de medicamentos. Se o paciente chegava com determinada glicemia, o caminho quase automático era o remédio. Ao fazer isso, suprimimos o sintoma sem dar ao metabolismo a chance real de se reequilibrar.

Há 15 anos, falar de Medicina do Estilo de Vida era algo periférico. Hoje temos evidências sólidas de que ela é a intervenção mais poderosa para tratar a raiz da resistência à insulina. O medicamento tem seu lugar, mas deve ser coadjuvante, não o protagonista.

No livro, defendo que o médico precisa ser, antes de tudo, um prescritor de saúde. Quando priorizamos o estilo de vida, estamos prescrevendo uma intervenção que atua na base da epigenética, na regulação hormonal e na reversão do dano metabólico. É o único caminho que permite, de fato, buscar a remissão. Enquanto o remédio gerencia a doença, o estilo de vida, aplicado com a precisão de um método, tem o potencial de desligá-la”.

Letícia Martins: Após anos estudando e acompanhando pessoas com diabetes tipo 2, qual é a principal mensagem de esperança que você gostaria que o leitor levasse ao fechar a última página de Diabetes OFF?

Dr. Wild Cavalcante: “Imagine um paciente sentado diante do médico e ouvindo que tem uma doença terminal rara. A primeira pergunta que faz é: ‘Doutor, o que eu posso fazer?’. E o médico responde: ‘Não há nada a fazer. Sinto muito’.

Agora imagine você, com pré-diabetes ou diabetes tipo 2, sabendo que existe o Diabetes OFF. Um sistema prático, com informação e aplicação concretas, que inclui o seu médico e a sua família no processo e que, a partir daqui, depende da sua escolha. Você tem o poder da escolha. Essa é a esperança que quero que o leitor leve ao fechar este livro”.

Ficha técnica:

Autor: Wild Cavalcante
Título: Diabetes OFF
Subtítulo: Como alcançar a remissão, jogando luz a um novo estilo de vida e apagando um futuro de complicações
Formato: 14 x 21 cm
Páginas: 192
Editora: Editora Labrador

Em Diabetes OFF, o endocrinologista reúne sua experiência profissional e pessoal para apresentar uma proposta prática voltada à educação em diabetes, ao controle metabólico e à busca pela remissão da doença, sempre dentro de um contexto de acompanhamento médico individualizado. O livro está disponível na Amazon. Basta pesquisar por “Diabetes OFF” diretamente na plataforma e você o encontra facilmente. Para acompanhar o trabalho do Dr. Wild, basta segui-lo no Instagram: @dr.wildcavalcante.


*  Priscila Horvat é jornalista com foco em saúde e integra a equipe da Momento Diabetes.

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