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Entrevistas Documentário brasileiro leva mensagem sobre saúde mental e diabetes para festivais internacionais

Por Priscila Horvat* Receber o diagnóstico de diabetes costuma dividir a vida em dois momentos: o antes e o depois. Para muitas pessoas, esse instante vem acompanhado […]

Momento Diabetes | 30/06/2026

Por Priscila Horvat*

Receber o diagnóstico de diabetes costuma dividir a vida em dois momentos: o antes e o depois. Para muitas pessoas, esse instante vem acompanhado de medo, insegurança e inúmeras dúvidas. Foi justamente para mostrar que essa história também pode ser escrita de outra maneira que nasceu “Aliança Azul: Uma Convivência Harmoniosa com o Diabetes”, documentário dirigido pelo psicólogo clínico, neurocientista e pesquisador Julio Peres, que convive com diabetes tipo 1 há quatro décadas.

Com 25 minutos de duração, o filme reúne relatos de pessoas com diabetes, familiares, profissionais de saúde, comunicadores, artistas e educadores para mostrar que informação de qualidade, acolhimento e saúde mental também fazem parte do tratamento.

Mesmo sendo recém-lançado, o documentário já começou uma trajetória internacional, recebendo o convite para participar de aproximadamente 60 festivais de cinema em diversos países.

Nesta entrevista exclusiva à Momento Diabetes, o idealizador do documentário Julio Peres conversa com a jornalista e editora-chefe da revista, Letícia Martins, sobre a origem do projeto, os bastidores da produção, os desafios de transformar ciência em cinema e explica por que acredita que boas histórias também podem mudar vidas. Acompanhe:

Documentário brasileiro leva mensagem sobre saúde mental e diabetes para festivais internacionais

Documentário brasileiro leva mensagem sobre saúde mental e diabetes para festivais internacionais

Bate-papo com o diretor

Letícia Martins: Como nasceu a ideia do documentário?

Julio Peres: Aliança Azul nasceu do encontro entre minha história pessoal, minha escuta clínica e uma necessidade social ainda pouco representada. Vivo com diabetes tipo 1 (insulinodependente) há 40 anos. Nesse percurso, aprendi que o diabetes é um grande aliado para o desenvolvimento pessoal em muitos sentidos. Também, como psicólogo clínico e neurocientista, acompanhei muitas pessoas atravessando diagnósticos crônicos desafiadores. O modo como um diagnóstico é comunicado pode gerar diferentes desdobramentos, desde um trauma psicológico até a abertura de caminhos para uma existência mais consciente e saudável.

O documentário veio justamente para qualificar esse primeiro momento e favorecer uma travessia harmoniosa com o diabetes. A inspiração veio igualmente das lindas histórias em que a aparente vulnerabilidade amadureceu em disciplina afetuosa, vividas por pacientes e familiares que tive a honra de atender. A todos eles, minha profunda gratidão”.

Letícia Martins: Para quem o documentário foi pensado?

Julio Peres: “Enderecei o documentário especialmente às pessoas recém-diagnosticadas com diabetes tipo 1 e às suas famílias. É essencial que, desde o início, crianças, adolescentes e adultos compreendam que a convivência com o diabetes não é ‘um bicho de sete cabeças’, como diz uma das personagens do filme. Tenho percebido esse impacto em famílias que acabaram de receber o diagnóstico.

Os pais de Antonia, de apenas 8 meses, souberam recentemente que a filha tem diabetes tipo 1. Depois de assistirem ao filme, disseram: ‘Que boa esperança o filme trouxe para nós! Estamos aprendendo a cuidar da nossa pequena, temos desafios pela frente, mas agora sabemos que o convívio em harmonia é com certeza possível, e é essa a realidade que estamos construindo!’.

Essa fala me emocionou muito e já teria justificado todo o nosso empenho para fazermos esse lindo trabalho. Aliança Azul fala também com profissionais de saúde, educadores e todos que integram essa imensa rede cotidiana de cuidado”.

Letícia Martins: O documentário também tem uma dimensão muito pessoal para você. O que ele representa hoje?

Julio Peres: “Significa muito para mim, muito mais do que eu imaginei. O cinema sempre me tocou profundamente por ser uma linguagem universal, especialmente quando uma obra transcende sua história e atravessa culturas. Por isso, fiquei muito emocionado ao ver dezenas de festivais internacionais reconhecerem Aliança Azul como um must-see documentary for global audiences, uma obra que ultrapassa o diabetes e alcança dimensões universais do cuidado e da experiência humana. Sentir-se útil a um propósito maior é uma alegria profunda, sobretudo quando essa travessia nasce de experiências generosas e inspiradoras e passa a pertencer ao mundo”.

Letícia Martins: Como aconteceu a escolha dos personagens?

Julio Peres: “Foram entrevistadas 104 pessoas, entre personagens que vivem o diabetes, familiares, profissionais da saúde, jornalistas, músicos, dançarinos, professores de capoeira e aikidô, artistas circenses e pessoas que caminhavam pela Avenida Paulista. A escolha teve como eixo principal a autenticidade. Eu buscava pessoas capazes de revelar espontaneamente símbolos, metáforas e experiências sobre a dimensão humana do diabetes e sua relação direta com a saúde mental. Desse material, construímos um arco narrativo em cinco atos, como se uma única história fosse revelada por diferentes vozes, linguagens e camadas”.

Letícia Martins: Qual foi o momento mais marcante durante as gravações?

Julio Peres: “O que mais me marcou foi a força emocional presente nas histórias. Em muitos relatos, o diabetes aparecia como um divisor biográfico: havia uma vida antes e uma vida depois do diagnóstico. As gravações reforçaram minha convicção de que a saúde mental deve ocupar lugar central no convívio harmonioso com o diabetes. O modo como a pessoa sente a própria condição influencia diretamente a forma como cuida de si”.

Letícia Martins: Houve algum momento inesperado que mudou os rumos do documentário?

Julio Peres: “Nas gravações com pessoas aleatórias em parques e avenidas de São Paulo, usando a linguagem documental do ‘povo fala’, percebemos com espanto o quanto ainda existe desconhecimento básico sobre o diabetes e como falsas crenças circulam como supostas verdades consolidadas. Esse material revelou a importância de desconstruir estigmas com informação qualificada, sensível e acessível, fortalecendo a ponte entre ciência, comunicação cuidado e compromisso social”.

Letícia Martins: Qual foi o maior desafio da produção?

Julio Peres: “Foi encontrar o tom certo. Falar sobre diabetes exige responsabilidade, mas uma comunicação baseada no medo pode ferir e aumentar a angústia. Buscamos uma linguagem que unisse ciência, sensibilidade e esperança realista, sustentando a saúde mental como eixo da narrativa. Também foi desafiador condensar um tema tão amplo em 25 minutos, selecionando o essencial dos depoimentos”.

Nathalia de Souza Santos, designer e ilustradora, 30 anos de diagnóstico, contou que sente que coloca toda a “raiva” para fora, a cada pincelada

Letícia Martins: Quanto tempo levou para produzir o documentário?

Julio Peres: “A produção levou aproximadamente seis meses. A ideia, porém, já vinha amadurecendo a partir da minha prática clínica e da necessidade de levar a saúde mental no diabetes ao cinema com qualidade e responsabilidade”.

Letícia Martins: Quantas horas de gravação foram realizadas?

Julio Peres: “Foram captadas aproximadamente 260 horas de material bruto. Realizamos muitas captações de metáforas, personagens, cenários simbólicos e narrativas valiosíssimas, material suficiente para uma consistente série documental de oito capítulos”.

Letícia Martins: Em tempos de vídeos curtos e redes sociais, por que o documentário ainda tem tanta força?

Julio Peres: “Costumo dizer aos meus pacientes que o saudável prevalece sobre o patológico e, justamente por isso, precisa ser revelado. O diabetes não cabe em uma frase de impacto. Num mundo digital acelerado, marcado por informações superficiais que adoecem, a “atenção involuntária”, dirigida por estímulos sensoriais, frequentemente se sobrepõe à “atenção voluntária”, orientada pela consciência. Escolher assistir a um documentário envolvente sobre bem-estar já representa um diferencial de adesão. Com leveza, metáforas simbólicas e narrativas inspiradoras, o filme favorece empatia, identificação, elaboração e mudança de percepções. Aliança Azul informa com qualidade por meio de narrativas e transforma pela identificação”.

Letícia Martins: O documentário já recebeu reconhecimento internacional?

Julio Peres: “Concluímos o documentário recentemente e, de imediato, o inscrevemos na FilmFreeway, a maior plataforma utilizada por grandes festivais na busca por filmes inovadores. Foi uma grata surpresa, de alto impacto, receber honrosos convites de consagrados festivais internacionais. Hoje, nosso filme concorre na condição diferenciada de convidado em aproximadamente 60 festivais distribuídos entre Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica, Brasil, Canadá, Espanha, Estados Unidos, França, Holanda, Índia, Irlanda, Itália, Nepal, Noruega, Portugal, Reino Unido, Rússia e Suíça. O reconhecimento já recebido confirma a força humana, social e transformadora do filme”.

Quem participa do documentário
Entre os participantes do documentário Aliança Azul estão pessoas com diabetes, familiares, profissionais da saúde, comunicadores e artistas que compartilham suas experiências ao longo da produção. Participaram da obra:

  • Ana Paula e Aroldo Guimarães Ribeiro da Silva, dançarinos e professores;
  • Carmen H. Wills, professora aposentada, 75 anos de diagnóstico;
  • Dra. Catarine Leonardo, dermatologista, 17 anos de diagnóstico;
  • Dr. Daniel Lerario, endocrinologista;
  • Dr. Eduardo Gomes Lima, cardiologista;
  • Emerson Bisan, educador físico e ultramaratonista, 30 anos de diagnóstico;
  • Dr. Fadlo Fraige Filho, endocrinologista;
  • Fran Justos, atriz e criadora de conteúdo, 14 anos de diagnóstico;
  • João Paulo Marques Dias, treinador e empresário, 32 anos de diagnóstico;
  • José Carlos Dias Chaves (Zelão), mestre de capoeira;
  • Julio Peres, psicólogo clínico, 40 anos de diagnóstico;
  • Larissa Gomes, bióloga e paisagista;
  • Letícia Martins, jornalista;
  • Maíra Campos, artista circense;
  • Marina de Barros, empresária, 25 anos de diagnóstico;
  • Martha Amodio, nutricionista;
  • Nathalia de Souza Santos, designer e ilustradora, 30 anos de diagnóstico;
  • Olga Curado, sensei de Aikidô;
  • Paulo Henrique Ramos, engenheiro civil, 37 anos de diagnóstico;
  • Rafael Andrade, professor e violinista;
  • Dr. Renato Klingelfus Pinheiro, oftalmologista;
  • Ricardo Araújo, engenheiro eletricista, 36 anos de diagnóstico;
  • Tom Bueno, jornalista, 21 anos de diagnóstico;
  • Valentina Barbosa Fernandes, estudante e patinadora, 8 anos de diagnóstico;
  • Zilda Maria da Silva, aposentada, 54 anos de diagnóstico.

Onde assistir:

Documentário: Aliança Azul: Uma Convivência Harmoniosa com o Diabetes
Duração: 25 minutos
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=MbYyplL6-0E
Mais informações: https://filmfreeway.com/BlueAllianceAHarmoniousCoexistencewithDiabetes


* Priscila Horvat é jornalista com foco em saúde e integra a equipe da Momento Diabetes.

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