Por Priscila Horvat*
Diagnosticada com diabetes tipo 1 em 2001, aos 15 anos, Mirian Aparecida Gualberto Santos Duarte, ou Mirinha Santos, como é mais conhecida, é uma caminhoneira brasileira que impressiona com sua história vivida, aliás, grande parte sobre rodas.
Motorista de caminhão desde jovem, ela transporta minério de ferro pela região central de Minas Gerais e carrega, com a carga pesada, uma missão pessoal: conscientizar outras pessoas sobre a gravidade do diabetes e a importância do cuidado contínuo.
A escolha pela profissão foi despertada ainda na infância. “Meu sonho, desde criança, sempre foi ser caminhoneira. Venho de uma família de caminhoneiros, com vários motoristas e operadores de máquinas, porque somos de uma região de minério de ferro”, conta. Aos 19 anos, já dirigia caminhões menores; aos 21, tirou habilitação para carreta. Desde então, a estrada se tornou sua segunda casa.
A rotina da caminhoneira
Mirinha faz, em média, viagens de cerca de 200 quilômetros por rota, o que normalmente lhe permite voltar para casa todos os dias. Ainda assim, a jornada de trabalho é intensa. “Às vezes, passo em casa, tomo um banho e volto para o caminhão para agilizar minhas viagens”. E a pergunta que todos fazem é: como fica o diabetes nessa rotina? Quando precisa dormir fora, ela se organiza para manter o tratamento, deixando tudo pronto para quando precisa sair. “Eu deixo as marmitas e lanches na geladeira, junto com a insulina”.
Hoje, Mirinha faz uso de insulina basal e de ação rápida, além de sensores de glicose e contagem de carboidratos. Mas nem sempre foi assim. “Houve uma época em que eu não cuidava do meu diabetes”, relembra. A virada veio após experiências duras, vividas na própria pele e dentro da família.
O irmão também teve diabetes tipo 1 e enfrentou complicações graves. “Com menos de trinta anos ele já tinha perda grave na visão”, relata. Após sete anos de hemodiálise, o irmão passou por um transplante de rim e pâncreas.
A dor também marcou a maternidade de Mirinha. Ela teve um único filho, que nasceu prematuro, entre seis e sete meses. “Foi um parto complicadíssimo”, conta. O recém-nascido precisou passar por cirurgia cardíaca e, após meses de internação, recebeu alta, mas faleceu aos dois anos, vítima de uma pneumonia gravíssima.
Na época da gestação, Mirinha reconhece que não tinha o controle adequado do diabetes. “Minha glicada já era alta na época, pois não controlava o diabetes. Eu não tinha noção de que o diabetes era tão grave. Mas, também, eu não procurava saber, só ficava no caminhão, trabalhando quase 24 horas direto”, relata.
Essas vivências dolorosas despertaram nela um propósito. Hoje, Mirinha atua ativamente na conscientização sobre diabetes, especialmente em sua cidade e região. Ela mantém um grupo de WhatsApp onde orienta pessoas com diabetes e familiares. “Conscientizo as pessoas da gravidade que é diabetes, porque eu tenho uma bagagem muito grande de experiência, em casa e na minha própria pele”.
Ela também faz palestras e atendimentos presenciais. “A pedido das mães, eu vou nas casas e aplico sensor em crianças que acabaram de receber o diagnóstico de diabetes. Jovens e adultos que nunca usaram o sensor também pedem minha ajuda e eu os ensino”.
Educação em diabetes
Além da atuação informal, a caminhoneira sonha em estruturar um projeto maior. Ela está tentando viabilizar a criação de uma associação de pessoas com diabetes em sua cidade, Congonhas. “Deus colocou esse projeto no meu coração e eu quero trabalhar em cima disso”.
Carismática, ela chama atenção também pela estética marcante. Mirinha tem uma relação especial com a cor rosa. “Tenho uma história com esse rosa há uns 20 anos”. Por dentro, o caminhão dela é rosa, assim como a moto, o carro e até os eletrodomésticos da casa.
Nas redes sociais e na estrada, ela percebe o impacto da sua visibilidade. “As pessoas são apaixonadas pelo caminhão. Quando me veem lidando com o diabetes, tomando insulina, fazendo contagem, a curiosidade desperta”. Para ela, essa identificação é uma porta de entrada para falar de saúde.
Hoje, Mirinha se define como alguém que encontrou sentido na própria história. “Deus me tirou do poço da depressão pela perda do meu único filho”, finaliza. E é por isso que ela tem essa vontade de ajudar quem passa pela estrada do diabetes, assim como ela própria. Com informação, fé e autocuidado, ela acredita que ainda pode realizar novos sonhos, inclusive o de ser mãe novamente e de ter seu caminhão próprio, 100% cor de rosa. Na estrada ou fora dela, Mirinha segue firme. Entre sensores, insulina e quilômetros rodados, ela prova que o diabetes não define limites, e que informação, de fato, pode salvar vidas.
*Priscila Horvat é jornalista com foco em saúde e integra a equipe da Momento Diabetes.







