Por Priscila Horvat*
A experiência de viver com diabetes pode impactar diferentes aspectos da vida, inclusive no trabalho. Isso também aconteceu no caso da artista multimídia Ruchita, de 46 anos, diagnosticada com diabetes tipo LADA (Diabetes Autoimune Latente do Adulto) há cinco anos. A vida com o diabetes foi a inspiração que a artista curitibana radicada em Florianópolis teve para criar a série inédita “Alterar-se”, que será exibida no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo (SP), entre 11 de julho e 24 de agosto. A entrada será gratuita.
Com elementos como mel e sangue, Ruchita constrói um percurso visual que traduz as oscilações glicêmicas, os desafios do autocuidado e a relação constante entre a vulnerabilidade e o equilíbrio. “Alternar-se nasce de algo que atravessa meu corpo, minhas emoções e minha rotina. Senti que era importante falar sobre esse tema porque os números seguem crescendo. Hoje, mais de 16 milhões de pessoas convivem com diabetes no Brasil e quase 600 milhões de pessoas no mundo. Então, essa obra funciona também como um convite para a observação do corpo e do cuidado cotidiano”, propõe Ruchita.

Artista curitibana Ruchita. Foto: Divulgação
A série faz parte do Território de Passagem,
Essa será a primeira exposição individual da artista na capital paulista. Com curadoria de Brunno Almeida Maia e direção de arte e expografia de Leandro Leão, a mostra reunirá oito obras produzidas no período de 2017 e 2025, entre videoartes, fotografias e instalações que investigam as relações entre corpo, tempo, memória e transformação.
As quatro obras que compõem a série apresentam diferentes metáforas sobre a convivência com o diabetes. Utilizando mel e sangue como metáforas, Ruchita compõe um ensaio visual e sonoro que explora os altos e baixos de seu cotidiano. Em ‘Limiares’, a artista escreve com sangue sobre espelho um gráfico de oscilações de taxas de glicemia; em ‘Compasso’, um lenço vermelho traduz essa inconstância; em ‘Abismo’, o reflexo em uma poça de mel evoca uma dor corporalizada; em ‘Um corpo que me rodeia’, o mel escorre pelo corpo de Ruchita, evidenciando movimentos que escapam de nosso controle e nos atravessam.
Corpo como território de experiência
Embora o diabetes apareça de forma marcante em uma das séries, a exposição amplia a reflexão para temas universais como identidade, impermanência, memória, vulnerabilidade e existência. Segundo a artista, toda a produção parte de experiências pessoais.
“A performance sempre foi a base do meu trabalho. Meu processo criativo parte de experiências internas, de questões que eu tento externalizar por meio da imagem”, explica Ruchita. “Tudo surge dessa investigação pessoal, dessa busca existencial que me acompanha desde muito nova. O corpo acaba se tornando um lugar de percepção, experimentação e transformação. É a partir dele que tento criar conexões com o outro”, conclui a artista.
A exposição está organizada em dois eixos curatoriais (O Corpo Inacabado e O Corpo é Tempo) reunindo obras que dialogam com conceitos como vulnerabilidade, transcendência, repetição, impermanência e dissolução. Além da exposição, a programação inclui visitas mediadas, oficina de videoarte, bate-papo com a artista e o lançamento do livro “Todo momento de achar é um perder-se a si própria”, que reúne sua produção artística entre 2017 e 2025.
Para quem vive com o diabetes, a mostra oferece uma oportunidade rara de enxergar a condição sob uma perspectiva completamente diferente: sensível, poética e profundamente humana, transformando o cotidiano do autocuidado em linguagem artística e, por consequência, ampliando o debate sobre corpo, saúde e qualidade de vida.
SERVIÇO
EXPOSIÇÃO TERRITÓRIO DE PASSAGEM – RUCHITA
DATA: 11 de julho a 24 de agosto de 2026
HORÁRIOS: terças a sextas, das 10h às 19h; sábados, das 10h às 20h; domingos e feriados, das 10h às 18h. Ativações gratuitas (sujeitas à lotação): visita mediada (20/08, às 19h30), bate-papo (21/08, às 19h30) e oficina de experimentação em videoarte (22/08, às 10h).
ENDEREÇO: Museu da Imagem e do Som (MIS) – Espaço Maureen Bisilliat, localizado na Av. Europa, nº 158, no Jardim Europa
CIDADE: São Paulo (SP)
Entrada: Gratuita
MAIS INFORMAÇÕES: https://mis-sp.org.br/exposicao/territorio-de-passagem/
* Priscila Horvat é jornalista com foco em saúde e integra a equipe da Momento Diabetes.




