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Tratamento Usar pó de café ou “deixar respirar”: confira mitos que podem piorar feridas nos pés de quem tem diabetes

Por Priscila Horvat* Uma pequena bolha no pé, um corte aparentemente simples ou até uma ferida que não dói podem parecer situações sem importância no dia a […]

Momento Diabetes | 19/05/2026

Por Priscila Horvat*

Uma pequena bolha no pé, um corte aparentemente simples ou até uma ferida que não dói podem parecer situações sem importância no dia a dia. Mas, para quem vive com diabetes, esses sinais merecem atenção imediata. Isso porque a cicatrização de feridas costuma ser mais lenta, o risco de infecção é maior e, quando o problema é negligenciado, as consequências podem ser graves, incluindo internações e até amputações.

Entre os principais motivos está a dificuldade de controle da glicemia. Quando a taxa de açúcar no sangue permanece alta, o organismo perde eficiência na defesa contra infecções e no processo natural de cicatrização. “Isso acontece porque, com a glicose alta, as células responsáveis pela defesa do organismo, como os leucócitos, ficam mais lentas e não conseguem atuar corretamente. Dessa forma, a infecção se instala com mais facilidade e torna a ferida mais complicada e difícil de tratar”, explica a endocrinologista Dra. Geísa Macedo, coordenadora do Departamento de Diabetes, Neuropatias e Complicações nos Pés da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD).

Além disso, muitos pacientes desenvolvem neuropatia diabética, uma condição que reduz a sensibilidade da pele, principalmente nos pés, fazendo com que machucados passem despercebidos. “Quando falamos dos pés, a situação fica ainda mais delicada. O paciente pode pisar em um prego, em uma pedra ou sofrer algum machucado e não perceber, porque não sente dor. Muitas vezes, ele só percebe quando o pé já está ferido, sangrando ou até infectado. Além disso, como a pessoa continua pisando sobre a ferida sem sentir desconforto, a lesão piora e a cicatrização fica ainda mais difícil. Diferente de quem não tem neuropatia e sente dor ao pisar, o paciente com diabetes pode continuar machucando a região sem perceber”, conta a profissional.

Segundo a médica, o que torna a cicatrização mais difícil no diabetes é justamente a combinação entre glicose alta, maior risco de infecção, falta de sensibilidade nos pés e a pressão constante da pisada sobre a ferida, especialmente porque os pés são áreas com grande contato com bactérias e mais suscetíveis a complicações.

Em meio a tudo isso, ainda persistem muitos mitos que atrasam o tratamento correto e colocam a saúde em risco. A seguir, a especialista esclarece os principais. Acompanhe:

Mito ou verdade?

Deixar a ferida “respirar” ajuda na cicatrização – MITO

“A ideia de deixar a ferida ‘respirar’ está ultrapassada porque, na prática, feridas não precisam respirar. O que define o tratamento adequado é o tipo e a profundidade da lesão. Nem toda ferida precisa de curativo oclusivo: um arranhão ou uma lesão superficial, por exemplo, pode apenas ser bem higienizado e acompanhado, já que normalmente cicatriza sozinho sem grandes complicações”, explica a médica.

Ela reforça que existem diferentes tipos de curativos para diferentes situações, especialmente nas feridas mais profundas e quando há suspeita de infecção ou presença de secreção, que exigem cuidados específicos. “Nesses casos, pode ser necessário retirar tecidos mortos (processo chamado de desbridamento), além de utilizar curativos adequados que favoreçam a cicatrização. Existem coberturas específicas para feridas com suspeita de infecção e também para aquelas que apresentam muita secreção, que precisam ser limpas diariamente”. Nessas situações, o acompanhamento de um profissional de saúde capacitado é fundamental para evitar complicações e garantir uma recuperação adequada.

Remédios caseiros devem ser evitados. Foto: Freepik

Remédios caseiros devem ser evitados. Foto: Freepik

Pó de café, açúcar e ervas ajudam a secar a ferida – MITO

Esse ainda é um dos erros mais comuns e também um dos mais perigosos. Segundo a Dra. Geísa, muitas pessoas ainda acreditam que produtos caseiros resolvem o problema, principalmente em feridas nos pés. O problema é que essas substâncias não são esterilizadas e podem contaminar ainda mais a lesão.

Produtos caseiros como açúcar, pó de café e ervas ainda são muito comuns no tratamento de feridas, infelizmente. “Muitas pessoas recorrem a essas práticas acreditando que elas ajudam na cicatrização, mas, na realidade, podem trazer ainda mais complicações. O pó de café, por exemplo, não tem nenhum benefício comprovado para a cicatrização e ainda representa um grande risco, porque não é um material esterilizado. Ou seja, ao ser colocado sobre a ferida, pode levar contaminação e provocar infecções”, explica.

Ela destaca que o açúcar até possui efeito adstringente, mas hoje existem produtos muito mais seguros e adequados. “As ervas e chás usados para lavar ou cobrir a lesão também oferecem esse mesmo perigo, além de poderem irritar ainda mais o tecido machucado. O açúcar é considerado menos prejudicial porque tem efeito adstringente e pode ajudar a reduzir secreções, mas hoje isso já não faz mais sentido, porque existem produtos muito mais adequados, seguros e acessíveis para esse cuidado”.

Soluções simples, como o soro fisiológico, por exemplo, são baratas, esterilizadas e muito mais indicadas para a limpeza correta da ferida. Por isso, feridas devem sempre ser avaliadas e tratadas por um profissional de saúde capacitado.

Se a ferida não dói, não é grave – MITO

Esse é um dos maiores perigos para pessoas com diabetes, principalmente quando há neuropatia. A dor funciona como um importante mecanismo de defesa do corpo, porque ela avisa que algo está errado. Quando ela não existe, a pessoa pode se machucar e continuar forçando aquela região sem perceber o problema. É como quando alguém encosta perto do fogo e sente o calor: imediatamente a pessoa afasta a mão para se proteger. Quando essa sensibilidade está comprometida, como acontece em pessoas com neuropatia diabética, esse alerta deixa de existir.

“A ferida sem dor pode ser muito grave. Como s pessoa com neuropatia não sente a dor, continua andando normalmente, o que agrava a lesão e facilita infecções. Em pouco tempo, isso pode evoluir para quadros graves e até levar à amputação. Por isso, uma ferida sem dor nunca deve ser ignorada e precisa de avaliação profissional imediata”, orienta.

Toda ferida precisa de antibiótico ou pomada – MITO

Nem toda ferida precisa de antibiótico, e o uso indiscriminado de pomadas pode até atrapalhar o tratamento. Quando se trata de uma ferida superficial, como um pequeno corte ou arranhão, geralmente basta lavar bem o local, fazer a limpeza com um antisséptico adequado e acompanhar a cicatrização. A médica explica que, nesses casos, não há necessidade de antibióticos ou pomadas, e a recuperação costuma acontecer naturalmente em poucos dias, com a formação da conhecida “casquinha”.

Já nas feridas mais profundas, como úlceras ou lesões mais extensas, o cuidado precisa ser mais criterioso. Nesses casos, o tratamento deve ser avaliado individualmente, porque nem sempre o uso de pomadas antibióticas é indicado. “Nos pés de pessoas com diabetes, por exemplo, esse tipo de conduta não costuma ser a mais adequada. O ideal é utilizar curativos específicos, antissépticos apropriados e coberturas feitas industrialmente, por serem curativos mais modernos”.

Feridas no pé de uma pessoa com diabetes precisa de atenção imediata – VERDADE

Uma ferida simples, como um corte no braço ou na perna, costuma exigir cuidados mais básicos. Já uma úlcera no pé de uma pessoa com diabetes, por exemplo, é uma situação muito mais complexa e que exige atenção redobrada. Nesses casos, o curativo precisa ser escolhido de acordo com a necessidade daquele momento e pode até mudar ao longo do tratamento.

“Úlcera nos pés de pessoas com diabetes é uma das maiores causas de amputação no mundo. Uma ferida que não pode ser negligenciada”, reforça a médica. Ela explica que a combinação entre neuropatia, pressão da pisada, glicose alta e risco de infecção torna o pé diabético uma situação que exige vigilância constante.

Sapatos de salto alto podem prejudicar ainda mais. Foto: Freepik

Sapatos de salto alto podem prejudicar ainda mais. Foto: Freepik

O calçado inadequado pode causar feridas – VERDADE

A especialista conta que, na prática, essa é uma das principais causas de lesões. Sapatos apertados, duros, com bico fino, salto alto ou sem proteção adequada aumentam muito o risco de machucados e úlceras. “Prevenir feridas no dia a dia não é muito fácil, porque ninguém se fere porque quer. A pessoa precisa ter cuidado por onde anda. Sapatos muito apertados, de salto alto (principalmente o tipo salto agulha), bico fino ou com pouca estabilidade aumentam o risco de quedas, desequilíbrios e lesões, especialmente em pessoas com diabetes”, afirma a Dra. Geísa.

A orientação é optar por calçados confortáveis, com sola antiderrapante, palmilha macia e espaço suficiente na parte da frente. Por isso, é fundamental ter muito cuidado na hora de escolher o calçado. A profissional dá uma dica importante para esse momento: comprar sapatos no fim da tarde ou à noite, quando os pés costumam estar mais inchados.

“Também é essencial verificar se há uma pequena folga na parte da frente, na região do dedão, cerca de um centímetro. Isso permite que o pé se movimente dentro do sapato sem que os dedos fiquem batendo na ponta, o que pode machucar a unha, a pele e até abrir feridas. O ideal é optar por calçados confortáveis, com sola antiderrapante, palmilha macia e boa estabilidade. Os tênis costumam ser um bom exemplo de calçado adequado para o dia a dia, porque oferecem proteção, conforto e segurança ao caminhar”.

Cuidado com machucados em atividades rotineiras também é essencial – VERDADE

Dentro de casa, também é importante ter atenção com objetos cortantes, como facas, panelas quentes, água fervente e outras situações comuns do dia a dia, mas que podem causar feridas ou queimaduras.

“Pessoas que têm neuropatia, artrite, deformidades nas mãos, pouca força ou problemas como síndrome do túnel do carpo precisam redobrar esse cuidado, porque a chance de acidentes é maior. Muitas vezes, uma panela pode escorregar ou uma xícara com líquido quente pode cair, provocando lesões importantes. Prevenir feridas, no fim, significa observar melhor o dia a dia, o tipo de calçado usado e os riscos presentes tanto na rua quanto dentro de casa”, afirma.

Na dúvida, o mais indicado, sempre, é procurar orientação profissional. Foto: Freepik

Na dúvida, o mais indicado, sempre, é procurar orientação profissional. Foto: Freepik

Cuidados que fazem a diferença

Além de abandonar mitos antigos, a prevenção ainda é a melhor estratégia. Para pessoas com diabetes, isso significa observar os pés diariamente, manter o controle glicêmico e procurar avaliação médica regular. A médica aconselha: “Se você tem diabetes, precisa olhar os pés todos os dias, lavar direitinho, secar entre os dedos e observar se existe alguma lesão, mesmo que pequena”.

Ela também reforça a importância de pedir, durante as consultas, que o profissional examine os pés e avalie a sensibilidade da região. “Se você sente formigamento, dormência, percebe alteração na circulação ou já teve alguma ferida antes, esse cuidado precisa ser ainda maior”, finaliza a especialista.

No fim das contas, a principal mensagem é simples: ferida não é algo pequeno quando se fala em diabetes. Quanto mais cedo o problema for identificado e tratado corretamente, maiores as chances de evitar complicações e preservar a qualidade de vida.


*Priscila Horvat é jornalista com foco em saúde e integra a equipe da Momento Diabetes.

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