Por redação*
Uma pesquisa nacional inédita realizada com pessoas com diabetes e cuidadores mostra que o uso de sensor de glicose está associado a menos complicações crônicas, menos procura por pronto atendimento e menor número de internações relacionadas ao diabetes.
Os dados revelam também um cenário de forte desigualdade no acesso à tecnologia no Brasil: pessoas com renda mais alta têm mais de três vezes mais acesso aos sensores de monitorização contínua da glicose do que aquelas com menor renda. O levantamento analisou respostas de 1.411 participantes de todo o país e foi realizado pelo Vozes do Advocacy em Diabetes e Obesidade em parceria com os pesquisadores Ademar Pinezi Junior e Dr. Rodrigo Siqueira.
Menos hospitalizações e menos complicações
Segundo a pesquisa, uma em cada três pessoas que nunca utilizou sensor precisou ir a pronto atendimento ou hospital por episódios de glicose alta ou baixa no último ano. Entre usuários atuais da tecnologia, esse número caiu para um em cada cinco pessoas, uma diferença de aproximadamente 41%.
Os dados também mostraram impacto importante nas internações:
- 17,7% das pessoas que nunca utilizaram sensor foram internadas por complicações relacionadas ao diabetes no último ano;
- Entre usuários atuais, esse índice foi de 11,5%.
A pesquisa identificou ainda a associação entre o uso atual do sensor e menor ocorrência de complicações crônicas do diabetes. Entre pessoas que nunca utilizaram a tecnologia:
- 43,7% relataram complicações microvasculares, como retinopatia, neuropatia e doença renal;
- 20,2% relataram complicações macrovasculares, incluindo doenças cardiovasculares e amputações;
- 47,5% declararam possuir alguma complicação crônica relacionada ao diabetes.
Já entre usuários atuais do sensor:
- 21,1% relataram complicações microvasculares;
- 5,7% complicações macrovasculares;
- 23,4% alguma complicação crônica.
Na prática, os usuários atuais apresentaram:
- cerca de 52% menos complicações microvasculares;
- 72% menos complicações macrovasculares;
- aproximadamente 51% menos complicações crônicas.
Hipoglicemia grave continua frequente
Mesmo com os avanços tecnológicos, os episódios graves ainda são comuns. Quase metade dos participantes (49%) relatou já ter apresentado hipoglicemia grave com necessidade de ajuda de outra pessoa. Além disso:
- 37,4% relataram histórico de cetoacidose diabética;
- 27,3% precisaram procurar pronto atendimento ou hospital por alterações graves da glicose;
- 14,8% foram internados devido ao diabetes no último ano.
Outro dado considerado preocupante pelos pesquisadores é o grupo de pessoas que já utilizou sensor, mas precisou interromper o uso. Entre elas:
- 60,5% relataram hipoglicemia grave;
- 29,5% precisaram de atendimento hospitalar;
- 16,3% foram internadas.
Tecnologia do sensor de glicose melhora sensação de segurança e qualidade do sono
A pesquisa mostrou impacto importante na vida diária e na percepção de segurança dos usuários. Quase todos os entrevistados (97,9%) afirmaram que o sensor traz mais tranquilidade para dormir. Mesmo assim, 64,3% ainda acordam pelo menos duas vezes durante a noite para verificar a glicose.
“Hoje existe tecnologia capaz de reduzir sofrimento, complicações e hospitalizações, mas muitas pessoas ainda vivem sem acesso adequado. O Brasil vive um paradoxo: a tecnologia avançou rapidamente, mas o acesso não acompanhou”, afirma o endocrinologista e pesquisador Dr. Rodrigo Siqueira.
Desigualdade social determina acesso à tecnologia
A desigualdade econômica apareceu como uma das principais barreiras para o uso do sensor de glicose. Atualmente:
- 40,8% utilizam sensor;
- 26,2% já utilizaram, mas precisaram interromper;
- 33% nunca tiveram acesso à tecnologia.
Entre aqueles que abandonaram o uso, 64,6% apontaram o alto custo como principal motivo. Além disso, 78,6% dos usuários atuais afirmaram pagar do próprio bolso ou recorrer à judicialização para conseguir acesso aos sensores.
A diferença de acesso entre as faixas de renda foi expressiva:
- entre pessoas com renda superior a 10 salários mínimos, 71,6% usam sensor atualmente;
- entre aquelas com renda de até 1 salário mínimo, apenas 21,3% utilizam a tecnologia. Isso significa que pessoas de maior renda têm aproximadamente 3,4 vezes mais acesso ao sensor de glicose.
Perfil dos participantes
A pesquisa foi realizada com 1.411 pessoas de todo o Brasil. Entre os participantes:
- 73,4% relataram diabetes tipo 1;
- 16,2% diabetes tipo 2;
- 31,2% eram cuidadores de pessoas com diabetes.
Além disso:
- pretos e pardos representaram 52% da amostra;
- mulheres corresponderam a 58% dos participantes;
- apenas 24% possuíam plano de saúde.
A maioria dos participantes tinha mais de 60 anos.
Impacto econômico no sistema de saúde
Segundo Vanessa Pirolo, presidente do Vozes do Advocacy em Diabetes e Obesidade, os dados reforçam a necessidade de ampliar o acesso às tecnologias no sistema público de saúde. “Hoje o Brasil gasta bilhões de reais todos os anos tratando complicações do diabetes. A pesquisa mostra que ampliar o acesso à tecnologia e à educação em diabetes pode ajudar a reduzir hospitalizações, complicações graves e custos para o sistema de saúde”, afirma.
Metodologia
A pesquisa “Acesso à Tecnologia de Monitorização do Diabetes no Brasil” foi realizada entre 12 de março e 6 de abril de 2026, com 1.411 adultos com diagnóstico referido de diabetes ou cuidadores de pessoas com diabetes. A coleta foi realizada de forma online em todo o território nacional. Os dados foram ponderados segundo perfil populacional da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS/IBGE 2019) e dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). A margem de erro é de 2 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. A pesquisa teve apoio da Roche.
* Conteúdo produzido pelo Vozes do Advocacy



