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Giro Saúde Dia Mundial da Obesidade: reconhecer a doença crônica é urgente no Brasil

O Dia Mundial da Obesidade, celebrado em 4 de março, chama atenção para um cenário preocupante. Segundo o Atlas Mundial da Obesidade 2025, da Federação Mundial da Obesidade, 68% dos brasileiros têm excesso de peso e, desses, 37% têm sobrepeso e 31% sofrem com obesidade.

Momento Diabetes | 04/03/2026

Por redação*

O Dia Mundial da Obesidade, celebrado em 4 de março, chama atenção para um cenário preocupante. Segundo o Atlas Mundial da Obesidade 2025, da Federação Mundial da Obesidade (World Obesity FederationWOF), 68% dos brasileiros têm excesso de peso e, desses, 37% têm sobrepeso e 31% sofrem com obesidade. Além disso, entre 40% e 50% da população adulta não pratica atividade física na frequência e intensidade recomendadas.

Seguindo esses números, a projeção mostra um futuro alarmante: até 2030, o número de homens com obesidade deve aumentar 33,4% e o de mulheres, 46,2%.

Dados analisados pela Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), com base no Vigitel 2025, mostram que a prevalência de obesidade cresceu 118% entre 2006 e 2024. No mesmo período, os casos de diabetes passaram de 5,5% para 12,9%, um aumento de 135%. Hoje, cerca de 19,9 milhões de adultos convivem com a doença no país. O Brasil ocupa a 6ª posição mundial em prevalência de diabetes tipo 2, segundo a Federação Internacional de Diabetes (International Diabetes Federation – IDF).

Obesidade: uma questão de saúde pública

Para o endocrinologista Marcio Mancini, diretor do Departamento de Tratamento Farmacológico da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), é fundamental mudar a abordagem. “É um problema de saúde pública, não dá mais para responsabilizar um indivíduo. Não dá para falar para aquela pessoa que sai às 5h da manhã de casa e chega em casa às 21h, que passa várias horas em transporte público, para comer mais frutas e legumes e ir para academia fazer exercício”, defende. “O problema de saúde pública tem que ser enfrentado com medidas de saúde pública”, enfatiza.

Esse cenário brasileiro traz implicações muito importantes para o sistema de saúde brasileiro, uma vez que a combinação de obesidade e diabetes acaba acarretando um aumento do risco cardiovascular, vascular e doença renal crônica, além das complicações crônicas do diabetes, como as neuropatias, que levam às amputações, e a cegueira.

“Por isso a Sociedade Brasileira de diabetes considera extremamente importante discutir a obesidade como uma doença crônica que pode trazer uma série de consequências, incluindo o diabetes do tipo 2”, explica Dra. Cintia Cercato, coordenadora do departamento de Obesidade e Síndrome Metabólica da SBD. “Políticas públicas para prevenir a obesidade são muito importantes”, alerta. Ela defende a inclusão, no sistema público, da promoção de dietas saudáveis e aumento de atividade física.

Um novo olhar para o diagnóstico

Tradicionalmente, o diagnóstico da obesidade se baseia no Índice de Massa Corporal (IMC), calculado a partir da relação entre peso e altura. No entanto, especialistas defendem uma avaliação mais ampla. Essa nova proposta, que já vem sendo implementada por profissionais de saúde progressistas e integrativos, tem como base um artigo publicado no The Lancet Diabetes & Endocrinology e apoiado por 75 organizações médicas que sugere que o diagnóstico da obesidade não se baseie apenas no IMC. A recomendação é incluir também medidas de circunferência da cintura, relação cintura-quadril ou avaliações diretas de gordura corporal, oferecendo um retrato mais fiel da saúde metabólica.

“O IMC não diferencia gordura corporal de massa magra. Portanto, usar somente ele pode levar a interpretações erradas. Por exemplo, um praticante de atividade física que está incluída na classificação de sobrepeso segundo o IMC pode ter um percentual de gordura baixo e alto em massa muscular. Nesse caso, não teria risco associado à saúde quando olhamos além do IMC”, explica a nutricionista Aline Menezes.

Tecnologia como aliada

A integração entre educação alimentar e tecnologia tem se mostrado uma aliada importante no enfrentamento da obesidade como doença crônica. As balanças de bioimpedância, por exemplo, permitem avaliar percentual de gordura, massa muscular e água corporal e oferecem até estimativas de calorias necessárias por dia, apresentando, assim, informações que permitem que nutricionistas construam planos mais precisos, ajustando treinos e dietas de acordo com a realidade de cada paciente.

Dispositivos inteligentes também auxiliam no monitoramento da pressão arterial e da frequência cardíaca, fatores frequentemente associados ao excesso de peso. Para pessoas com diabetes ou pré-diabetes, condições que têm relação direta com o IMC elevado, o controle glicêmico é determinante. Hoje, há monitores que oferecem registro de centenas de medições, marcações por refeição e alarmes, tornando o acompanhamento mais seguro e preciso.

Segundo Pedro Henrique Abreu, Gerente de Marketing e Produtos da G-TECH, empresa do segmento de equipamentos para monitoramento domiciliar e hospitalar, “os dados coletados por dispositivos inteligentes dão mais poder ao paciente e ao nutricionista. A prevenção e o ajuste de hábitos deixam de depender apenas de consultas pontuais e passam a ser um processo contínuo e personalizado”, avalia o profissional.

Combate ao estigma

Além dos desafios clínicos, especialistas destacam o impacto do estigma. A psicóloga Priscila Pecoli, do Departamento de Psicologia da SBD, alerta que o preconceito pode afastar pacientes do cuidado. “Existe um estigma contra a obesidade que não é apenas um sentimento ruim, ele acaba sendo uma barreira clínica, pois as pessoas relutam em buscar ajuda médica”, explica. “Com medo do preconceito e do julgamento, as pessoas decidem esperar estar com peso melhor ou conseguir incluir uma rotina de exercício antes de ir ao médico”, lembra.

Ela reforça a importância de uma mudança de linguagem e postura, inclusive dos próprios profissionais da saúde. “Para colocar isso na prática, precisamos entender que a obesidade e o diabetes são condições de saúde extremamente complexas, influenciadas por genética, ambiente, biologia e não são falhas de caráter ou uma falta de força de vontade, como muitos costumam dizer.”

A profissional também sugere uma mudança na linguagem, como parar de rotular a pessoa pela doença. “Então ela não é obesa, ela é uma pessoa que convive com obesidade. Assim como não é diabético, é pessoa que convive com diabetes. Com esse tratamento mais humano, sem julgamento, o paciente deixa de se esconder e assume seu próprio cuidado, seu próprio tratamento”, finaliza. No guia “Linguagem Importa”, do FórumCCNTs, é possível encontrar a versão atualizada do vocabulário utilizado para tratar de temas como diabetes, obesidade e saúde mental, reforçando a importância de uma comunicação mais empática e não estigmatizante. O guia pode ser acessado gratuitamente.

Reconhecer a obesidade como doença crônica é o primeiro passo para enfrentar o problema. Mas, além disso, ainda é preciso unir políticas públicas, acompanhamento multiprofissional, tecnologia e combate ao preconceito com a condição, algo que é necessário, urgente, e pode transformar a trajetória de milhões de brasileiros.


* Com informações das assessorias de imprensa da nutricionista Aline Menezes, G-Tech e da Sociedade Brasileira de Diabetes

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