Por Raquel Ferreira*
O diabetes tipo 1 é uma condição autoimune que impacta o pâncreas e impede a produção de insulina pelo organismo. Esse hormônio precisa ser reposto por meio de aplicação exógena (externa). Mas aí fica a dúvida: como e onde aplicar corretamente o hormônio?
Quem tem diabetes tipo 2 pode ou não precisar aplicar insulina, aliada com antidiabéticos orais. Já quem tem diabetes tipo 1 necessita de várias aplicações de insulina por dia.
É importante entender que a insulina é um medicamento injetável, com aplicação subcutânea. “Hoje podemos aplicar a insulina com a seringa, com a caneta e com a bomba de insulina. Há um tempo a insulina inalável estava disponível no mercado, mas hoje não está mais disponível aqui no Brasil”, explica Alexandra Rodrigues dos Santos Silva, enfermeira, educadora em diabetes e membro do departamento de enfermagem da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD).
Cuidados antes e após a aplicação
Antes de fazer a aplicação da insulina é preciso higienizar as mãos com água e sabão, ou álcool 70%, para depois separar os materiais que serão usados: álcool, agulha e a insulina.
Tanto para a seringa quanto para a caneta, é preciso higienizar o êmbolo antes de colocar a agulha, que deve ser trocada a cada aplicação. “Quando a agulha não é trocada e fica na caneta após a aplicação, pode criar uma passagem, que vai aumentar a probabilidade de entrar bolhas de ar, o que pode atrapalhar a aplicação da dose de insulina corretamente”, esclarece a enfermeira Alexandra.

Enfermeira Alexandra Rodrigues dos Santos Silva. Confira a entrevista completa aqui.
Onde aplicar a insulina
O paciente que precisa de insulina faz aplicações diárias, muitas vezes mais de uma vez por dia. Uma orientação importante é fazer um rodízio de locais, para evitar a formação de hipohipertrofia, uma condição caracterizada pela perda ou redistribuição anormal de gordura corporal, ou seja, alterações no aspecto na pele.
“Existem estudos que mostram que a hipohipertrofia pode ser formada logo na primeira aplicação. Então, o rodízio de locais para injetar o hormônio evita a formação de calombos e favorece a absorção completa daquela insulina”, ressalta a profissional.
Garantir que a insulina seja absorvida corretamente pelo corpo é essencial para o tratamento, uma vez que quando as doses ficam “incompletas”, a eficácia do hormônio cai e, com isso, pode ser necessário um ajuste na dosagem.
Os locais mais indicados para a aplicação são:
- abdômen (evitando a região próxima ao umbigo);
- parte lateral das coxas;
- parte posterior dos braços;
- flancos e glúteos.

Onde aplicar a insulina. Fonte: SBD
Como armazenar a insulina corretamente
Um ponto muito importante é onde e como armazenar a insulina. A caneta ou o frasco aberto, que está sendo usado, pode ser guardado em temperatura ambiente, longe do calor e da exposição do sol.
Já a insulina lacrada deve ser guardada na geladeira, em uma parte com temperatura mais controlada. “Se colocar a insulina na porta da geladeira, que a gente abre e fecha o tempo todo, pode ter uma variação de temperatura muito grande, e isso vai interferir na ação da insulina”, ressalta a enfermeira.
A indicação é colocar próximo à gaveta das verduras, pois não corre o risco de ficar muito perto do congelador. É importante lembrar também que, se a insulina congelar, perde o poder de ação e não pode ser mais usada.
Por fim, é preciso estar atento ao prazo de validade da medicação. As insulinas devem ser usadas conforme o período definido pelo fabricante, que fica entre 28 e 30 dias. Olhando a bula é possível confirmar esse prazo.
O recomendado é que, ao abrir a insulina, o paciente anote a data, para garantir o uso dentro do prazo de validade. Usar o produto vencido interfere diretamente na eficácia do tratamento.
Entenda como é cada tipo de aplicação
Seringa
Conforme a recomendação da SBD, a seringa correta para aplicação é a que tem a agulha acoplada. Quando a agulha não é fixa, existe a possibilidade de perder uma dose de insulina. “Esse tipo de seringa tem um canhãozinho (que é como chamamos o comecinho da agulha), e ali pode ficar o medicamento. A pessoa pode, então, estar aplicando a dose incorreta”, afirma Alexandra.
As seringas disponíveis no mercado variam entre 30, 50 e 100 unidades, com diferentes marcações, entre 0,5 e 2 ml. Um profissional de saúde deve orientar o paciente sobre como fazer a identificação das marcações, para quando for aspirar a insulina do frasco, ter a certeza da dose que será usada.
Canetas
Existem ainda as canetas descartáveis e permanentes, usadas com refil. As descartáveis são usadas até o final das doses e, depois, é preciso colocar o material usado em um frasco rígido, por ser perfurante e cortante, para evitar acidentes. A orientação da profissional é que, após encher o frasco, as canetas e agulhas usadas devem ser levadas até um posto de saúde, que fará a destinação correta do material.
Já para as canetas permanentes, a orientação é se atentar para usar o refil da mesma marca. “Se você tentar introduzir um refil de outra marca poderá ter problemas, inclusive na hora de aplicar, como mau funcionamento da parte mecânica da caneta”, esclarece Alexandra.
O método de aplicação é o mesmo para ambas as canetas. Há um seletor que mostra a quantidade de doses disponíveis. “Sempre que girar o botão, a dose é preparada. Depois de selecionar a dose, aperte o embolo e conte até 10, para ter certeza de que toda a insulina foi injetada”, explica a enfermeira.
Se ao retirar a agulha pingar uma gota, é sinal de que é preciso mais tempo de aplicação. Nesse caso, o paciente deve contar até 15 para só depois retirar o aplicador.
A enfermeira reforça ainda que, quando as pessoas estão iniciando o tratamento, é preciso que as primeiras aplicações de insulina sejam feitas de forma supervisionada, principalmente quando se trata de crianças e adolescentes. Dessa maneira, o profissional de saúde orienta sobre os cuidados antes e depois da aplicação e como garantir que a dose certa de insulina seja injetada.
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* Raquel Ferreira é jornalista com foco em saúde e integrou a equipe da Momento Saúde Editora.