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Giro Saúde Como fazer o descarte seguro de medicamentos vencidos e materiais usados no tratamento do diabetes

Descartar remédios, agulhas e tiras no lixo comum pode causar danos ambientais e provocar acidentes. Veja como fazer o descarte corretamente.

Momento Diabetes | 17/03/2026

Por Priscila Horvat*

O Brasil está entre os países que mais utilizam medicamentos no mundo: são mais de 162 bilhões de doses vendidas anualmente, segundo o Conselho Federal de Farmácia. No entanto, ainda existe muita desinformação sobre como descartar medicamentos vencidos ou sem uso, além de itens essenciais para quem vive com diabetes, como agulhas, seringas, lancetas, tiras de teste e insumos da bomba de insulina. O resultado é um problema que afeta diretamente a saúde pública e o meio ambiente.

Descartar remédios na pia, no vaso sanitário ou no lixo comum pode parecer inofensivo, mas especialistas lembram que as estações de tratamento de esgoto não foram projetadas para remover princípios ativos farmacológicos. Isso significa que as substâncias químicas de medicamentos descartados de forma errada chegam a rios, lagos, mananciais e podem chegar até ao mar.

A Universidade de York, no Reino Unido, realizou um estudo sobre o tema e analisou 258 rios em 104 países, e encontrou resíduos de medicamentos em mais de um quarto deles, indicando uma crise ambiental global. As moléculas de fármacos, muitas vezes estáveis e resistentes, permanecem por longos períodos no ecossistema, acumulando-se no solo e em organismos vivos.

Além disso, segundo a infectologista Camila Ahrens, do Hospital São Marcelino Champagnat, o descarte inadequado contribui para o surgimento de superbactérias. “Isso acontece porque os resíduos do medicamento ficam no ambiente e permitem que alguns micro-organismos se adaptem a essas substâncias, tornando-se mais resistentes aos tratamentos convencionais. Ou seja, além de poluir o meio ambiente, o descarte incorreto de medicamentos aumenta o risco de termos infecções mais difíceis de tratar no futuro”, salienta.

Na prática, isso significa que infecções comuns podem deixar de responder aos tratamentos utilizados atualmente, exigindo medicamentos mais fortes, mais caros e com mais efeitos colaterais. “Doenças muito frequentes, como infecções de pele, garganta, urinária, pneumonia, até infecção hospitalar simples podem se tornar grandes problemas. O risco é voltarmos a uma era pré-antibiótico em que as infecções que hoje são tratáveis voltariam a ser ameaçadoras à vida”, alerta a médica.

Crédito: reprodução DIABETESmagazine – Edição 02 – revista da Sociedade Brasileira de Diabetes)

E os insumos do diabetes?

Quem vive com diabetes pode produzir, diariamente, resíduos que são considerados potencialmente perigosos, como lancetas, tiras com sangue, agulhas, canetas de insulina, frascos, cateteres, cânulas e reservatórios de bombas de insulina. Esses materiais apresentam risco de ferimento, infecção e contaminação do solo e da água.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), esses itens devem ser tratados como resíduos perfurocortantes e contaminados, seguindo recomendações semelhantes às dos serviços de saúde. Nesses casos, a orientação é armazená-los em coletores rígidos específicos, de cor amarela, identificados com símbolo de material infectante. Esse coletor pode ser retirado gratuitamente em Unidades Básicas de Saúde (UBSs) ou adquirido em farmácias, lojas especializadas e casas cirúrgicas. Na ausência do coletor, é possível improvisar um recipiente seguro, desde que não seja de vidro ou garrafa PET, pois ambos aumentam o risco de acidentes, como perfuração.

O coletor deve ter:

  • Material rígido e inquebrável, resistentes à perfuração, ruptura e vazamento;
  • Abertura larga o suficiente para permitir o descarte com uma das mãos sem tocá-lo;
  • Tampa firme;
  • Alça para garantir o manuseio e o transporte seguro;
  • Identificação: “Atenção: material perigoso”.

A SBD orienta que frascos de insulina (vazios ou vencidos), canetas descartáveis e reservatórios usados também devem ser destinados ao mesmo coletor de perfurocortantes.

E, atenção: as tiras de glicemia usadas não podem ir ao lixo comum. Elas também devem ser descartadas com os demais perfurocortantes, pois contêm material biológico.

Como descartar medicamentos corretamente

Medicamentos vencidos ou em desuso são classificados como resíduos perigosos. A recomendação da SBD é levá-los às UBSs, que farão o encaminhamento correto, ou, ainda, farmácias que disponibilizam pontos de coleta (consulte as mais próximas da sua localização no site do Programa Descarte Consciente). Em casa, eles devem ficar em local seco, fora do alcance de crianças e animais, e sempre em uma embalagem fechada.

A seguir, confira um passo a passo para descartar os insumos do diabetes com segurança:

  • Separe lancetas, agulhas, tiras, canetas, frascos e insumos da bomba;
  • Coloque tudo em um recipiente rígido, apropriado;
  • Identifique: “Atenção: material perigoso”;
  • Armazene em local seguro;
  • Entregue o coletor cheio na UBS mais próxima.

O folder “Jogue Lixo no Lixo”, da SBD, também traz orientações detalhadas sobre como lidar com resíduos perfurocortantes e materiais contaminados usados no tratamento do diabetes. Clique aqui para acessar.

Mesmo medicamentos que normalmente não “aparentam” causar nenhum dano, como cápsulas, comprimidos e xaropes, após o vencimento, precisam ser entregues em um ponto de coleta. A dica, antes do descarte, é manter as embalagens fechadas e fora de alcance de crianças e animais domésticos. Leia as bulas e embalagens; às vezes há orientações específicas para o descarte. E, por fim, vale compartilhar essas informações com toda a família e círculo de amigos, já que o desconhecimento é uma das maiores causas do descarte errado.

Para quem convive com o diabetes e depende de insumos diários, seguir as orientações de descarte seguro é uma forma de autocuidado e um compromisso ambiental. Afinal, a responsabilidade é de todos: governo, indústria, farmácias e cidadãos, mas ela começa em casa, com escolhas simples e conscientes.


*Priscila Horvat é jornalista com foco em saúde e integra a equipe da Momento Diabetes.

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