Por Priscila Horvat*
Usar a hemoglobina glicada para levar atendimento para diagnóstico precoce e cuidado com o diabetes a comunidades remotas de todo o Brasil. Essa frase, dita em voz alta, pode até parecer uma promessa política ou um plano de alguém considerado bem sonhador, mas não é nada disso, é algo bem real. Estamos falando do Glicada na Estrada.
Um projeto social que foi apresentado na seção Projetos Independentes do Congresso Brasileiro de Diabetes 2025, da Sociedade Brasileira de Diabetes, e que vem chamando a atenção por essa proposta simples, mas revolucionária, com a ajuda de voluntários, tecnologia, educação e uma forte visão de igualdade em saúde.
Idealizado e coordenado pela endocrinologista Dra. Julia Magarão, o Glicada na Estrada atua desde 2021 e, em 2023, passou a ter CNPJ como associação sem fins lucrativos. A profissional conta que a ideia surgiu em 2019, a partir de uma inquietação: ao participar de ações médicas voluntárias no sertão de Pernambuco, ela percebeu que a falta de ferramentas diagnósticas dificultava o rastreio e o cuidado adequados com o diabetes.
“Não era possível orientar o paciente com apenas um resultado isolado de glicemia capilar, porque aquela pessoa não estava em jejum e a informação era insuficiente para diagnóstico ou manejo”, explica. “O diagnóstico acabava acontecendo apenas em pacientes já sintomáticos, com glicemia capilar acima de 200 mg/dL, o que representa poucos casos e, geralmente, situações mais avançadas. Isso gerava muita frustração, pois perdíamos a oportunidade de diagnóstico precoce e de evitar complicações”.
E foi justamente essa frustração que levou a endocrinologista a buscar uma tecnologia que mudasse radicalmente esse cenário: o exame de hemoglobina glicada point of care, um teste que, com uma única gota de sangue, realiza a média glicêmica dos últimos três meses em cerca de três minutos, sem a necessidade de jejum.
“Com essa tecnologia, conseguimos identificar quem realmente tem diabetes, avaliar o controle glicêmico e orientar ajustes no tratamento, melhorando muito a qualidade do atendimento em áreas remotas. O equipamento também oferece segurança: se a temperatura ultrapassa 36 graus Celsius (°C) ou se os reagentes são expostos a condições inadequadas, ele não fornece resultado, evitando erros”, explica.
Hemoglobina: diagnóstico certeiro
O exame de hemoglobina glicada Point of Care é central no trabalho do projeto. A hemoglobina glicada permite avaliar como esteve o controle do diabetes nos últimos meses, oferecendo uma visão mais completa do que um resultado isolado de glicemia capilar. Por meio da tecnologia Point of Care, aprovada pelo National Glycohemoglobin Standardization Program (NGSP), o exame pode ser realizado com uma única gota de sangue e fornece o resultado em poucos minutos, o que possibilita identificar tanto novos casos de diabetes quanto situações em que o controle da doença precisa ser ajustado, mesmo em locais sem estrutura laboratorial.
“Existem estudos de custo-efetividade no Brasil mostrando que, apesar de mais caro que o exame laboratorial, o Point of Care é mais viável em regiões remotas, onde o deslocamento até um laboratório é complexo e oneroso”.
No programa, a equipe realiza três etapas principais:
- rastreamento com hemoglobina glicada, com a identificação de casos de pré-diabetes e diabetes com o exame;
- educação e orientações, com avaliação do histórico glicêmico e informações sobre controle do diabetes e mudanças de estilo de vida; e
- tratamento continuado, com a entrega de medicamentos para seis meses para pacientes em áreas remotas, garantindo continuidade no tratamento.
Impacto social
Desde 2021, o Glicada na Estrada já acolheu mais de dois mil pacientes e, segundo a Dra. Julia, com quase 50% deles apresentando exames alterados, muitos com diagnósticos novos de diabetes ou pré-diabetes, e outros já com diabetes prévio, porém com controle insuficiente, um reflexo do desafio de acesso à saúde em comunidades distantes. “Muitos pacientes não sabiam que tinham diabetes ou viviam sem acompanhamento. Detectar cedo muda o futuro dessas vidas”, diz Julia.
O projeto já passou por 11 estados, e o objetivo agora é expandir para cobrir todo o Brasil. Para isso, a equipe aguarda aprovação em um comitê de ética científica para revisar prontuários e partir para publicações em revistas indexadas, fortalecendo a base científica da iniciativa.
Mas atuar em regiões remotas exige mais do que tecnologia: exige respeito às práticas culturais e à realidade local. Por isso, a equipe de voluntários começa cada ação ouvindo a comunidade para entender hábitos alimentares, estilo de vida e crenças locais, construindo orientações que façam sentido para aquelas pessoas. A médica conta que, em muitas localidades, a base da alimentação é um carboidrato, como a mandioca, por exemplo. Nesses casos, ao invés de demonizá-la, os profissionais orientam combinações que possam reduzir o impacto glicêmico sem desrespeitar tradições. Mas é importante ressaltar que o projeto valoriza a autonomia dos pacientes, explicando os riscos e as escolhas alimentares de forma clara, sempre sem impor condutas.
Desafios
Embora o projeto seja uma ótima maneira de atender pessoas em situações remotas, existem ainda muitos obstáculos para que o Glicada na Estrada consiga chegar ainda mais longe. Entre os principais desafios estão a captação de recursos e a logística de chegar a pontos isolados, muitas vezes a horas de estrada de chão ou de barco. A equipe precisa garantir que os equipamentos funcionem em condições climáticas adversas, utilizando bolsas térmicas e precauções para manter a qualidade dos reagentes e do teste.
“Atualmente, enfrentamos o desafio de obter investimento próprio, pois ainda dependemos de ONGs1 maiores para viabilizar as viagens. Isso limita nossa autonomia para decidir onde atuar e para garantir o seguimento dos pacientes. Já estivemos em comunidades com alto índice de diabetes descompensado, mas, se a ONG parceira não retorna ao local, não conseguimos acompanhar esses pacientes. Por isso, buscamos capital próprio para garantir autonomia e continuidade do cuidado”, explica a médica.
Mesmo com os desafios financeiros e de logística, o Glicada na Estrada não para de evoluir. “Recentemente, incorporamos a medição de cetonemia para rastrear risco de cetoacidose diabética, permitindo encaminhamento rápido quando necessário. Isso aumentou muito a segurança do atendimento. Também estamos estudando a implementação de sensores de monitoramento contínuo de glicose, inicialmente em ações-piloto no Rio de Janeiro, onde é possível rever o paciente após 14 ou 15 dias. A partir dessa experiência, avaliaremos a expansão para regiões mais remotas, inclusive com acompanhamento remoto. Além disso, temos um cuidado rigoroso com sustentabilidade, garantindo que todo o material utilizado seja recolhido e descartado adequadamente”.
Formação de voluntários e equipe multidisciplinar
Uma das marcas do Glicada na Estrada é o caráter multidisciplinar e inclusivo. Hoje, a equipe reúne médicos, estudantes, nutricionistas, educadores físicos e até pessoas que não são profissionais de saúde, mas que contribuem nas dinâmicas educativas durante as ações. “Queremos que quem participa se transforme tanto quanto quem recebe o atendimento”, aponta Julia.
O programa também desenvolveu parcerias com instituições de ensino, como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e o Centro Universitário de Valença (UniFaa), para envolver estudantes em extensão universitária e ampliar o alcance das ações. Segundo conta a Dra. Julia, existem diversos motivos para alguém decidir participar do Glicada na Estrada como voluntário, como:
- para ter uma vivência profissional imersiva, muito além do trabalho em consultórios e hospitais;
- para levar cuidado, conhecimento e tecnologia em diabetes para comunidades que mais precisam;
- para exercitar sua empatia, capacidade de improviso e seu espírito aventureiro;
- para conhecer a cultura e beleza de um Brasil fora das rotas turísticas;
- para treinar suas habilidades de trabalho em equipe.
Podem participar do projeto profissionais de todas as áreas. “Realizamos a capacitação de voluntários para levar o projeto em ações médicas de diversos estados do Brasil”, finaliza a médica. Os interessados em se voluntariar precisam entrar em contato com a equipe por meio de um formulário, que pode ser preenchido diretamente no site.
*Priscila Horvat é jornalista com foco em saúde e integra a equipe da Momento Diabetes.







