Coloque seu celular no modo retrato

Entrevistas Brasil é o primeiro país da América Latina a receber sensor preditivo para diabetes

CEO da Roche Diagnóstica Brasil detalha os impactos da nova tecnologia, os investimentos em pesquisa e o desafio de ampliar o acesso a todos os pacientes.

Momento Diabetes | 04/12/2025

 

Por Letícia Martins (entrevista) e Priscila Horvat (texto)*

O Brasil deu mais um passo importante para facilitar o controle do diabetes. A Roche Diagnóstica acaba de lançar no país uma nova tecnologia de sensor de glicose com capacidade preditiva, um avanço que permite prever oscilações nos níveis de glicose antes que elas aconteçam.

A novidade chega apenas três meses após o lançamento na Europa, colocando o Brasil na vanguarda da inovação em saúde digital e no manejo do diabetes.

Carlos Martins, CEO da Roche Diagnóstica Brasil, conversou com nossa editora-chefe, Letícia Martins, em uma entrevista especial para a Momento Diabetes. O executivo contou, com exclusividade, o significado desse lançamento, a evolução da tecnologia no controle da doença e o papel estratégico do Brasil na expansão global da empresa. Acompanhe: 

Carlos Martins, CEO da Roche Diagnóstica Brasil

Letícia Martins: Como o senhor avalia a evolução da tecnologia no manejo do diabetes?
Carlos Martins: É uma evolução tremenda. Há 20 e poucos anos, a medição do diabetes era feita através da urina colocada dentro de um tubo, o método Benedict. Desde esse momento, tivemos toda a evolução de vários tipos de monitores e tiras de teste, que eram espetaculares no momento. Mas agora temos a possibilidade de contar com um sensor que oferece algo novo: a predição. É como uma ‘bola de cristal’ que permite enxergar o futuro da glicemia. Isso ajuda o paciente a controlar melhor sua condição, ter mais qualidade de vida e evitar incidentes mais graves, como a hipoglicemia.

Letícia Martins: Por que o Brasil foi escolhido para lançar essa tecnologia?
Carlos Martins: O Brasil é o primeiro país da América Latina onde lançamos este produto. É um país de mais de 200 milhões de habitantes e cerca de 20 milhões de pessoas com diabetes, o que representa uma oportunidade única de gerar dados clínicos e poder usar esses dados para uma incorporação no sistema de saúde público, que tem que entender que existe valor nesse tipo de solução. Ainda não está incorporado, infelizmente. Além disso, a diversidade do ponto de vista populacional, a infraestrutura de saúde suplementar e a questão regulatória da Anvisa, que é, obviamente, a agência de excelência para poder registrar esse tipo de produto, foram fundamentais. Outros países, como Alemanha, Holanda, Inglaterra, França, Reino Unido e Portugal, lançaram há três ou quatro meses. Ou seja, o Brasil está realmente na ponta.

Letícia Martins: Quais são os próximos passos para ampliar o acesso a esse tipo de tecnologia?
Carlos Martins: Nem todos os pacientes terão acesso de imediato, e é isso que queremos mudar. Nosso objetivo é realmente aumentar o acesso a esse tipo de solução, para que não seja um privilégio de alguns e não para todos. Isso é feito de forma conjunta e coletiva com a indústria farmacêutica, que é quem traz as inovações e colabora com os profissionais de saúde e com as instituições públicas para poder massificar esse efeito e, assim, colabora e escuta os pacientes, que são os utilizadores no dia a dia e que são quem nos pode ajudar a melhorar o produto de forma consistente e constante no futuro.

Carlos Martins, CEO da Roche Diagnóstica Brasil

Letícia Martins: O que essa tecnologia representa para os pacientes?
Carlos Martins: Vou ser sincero: eu tenho casos próximos de diabetes na família. Então, para mim, como líder da organização e como pessoa, é um momento até emocional, porque estamos mudando a vida das pessoas. Ainda não existe uma cura para o diabetes, então o que temos que garantir é uma melhor qualidade de vida e a prevenção de eventos graves, como hipo e hiperglicemias. Esse lançamento é resultado de um time que trabalhou muito para trazer esse produto ao mercado. São muitos anos de investigação, muito recurso investido, milhares de pessoas trabalhando a nível mundial para que esse sensor chegasse aqui.

Letícia Martins: A Roche fala sobre a “medicina da predição”. Esse conceito vai além do diabetes?
Carlos Martins: Sem dúvida. A tecnologia de sensor para diabetes e glicose é o início de uma estratégia que, no futuro, queremos usar para outras condições, como doenças cardiometabólicas e obesidade, com a monitorização do coração em tempo real e também com a monitorização em tempo real desse tipo de todos os marcadores que estão inerentes à obesidade. Também, não é só o sensor, tem o hardware, tem a parte de software que tem que ser integrada. Estamos trabalhando com parceiros fantásticos como a IBM para integrar inteligência artificial para potencializar o conceito de predição. Mas a Roche sempre traz algo novo, como aqui, o caso da predição. Neste tipo de medicação, vamos trazer uma medicação oral, em vez de ser injetável. Outro ponto é que a maioria desses medicamentos provoca uma perda de peso também, mas significativa também ao nível da perda de massa muscular. O que queremos prevenir, principalmente em pessoas acima de 40, 45 anos, em que a degradação de massa muscular começa a acentuar ao longo da sua vida, é que as pessoas mantenham essa massa muscular, para que o processo de emagrecimento possa acontecer com a gestão do diabetes de forma normal, mas sem esse impacto da perda de massa muscular. Tudo o que estamos apresentando é apenas o início de uma estratégia cardiometabólica que temos para levar para a frente e impactar os pacientes cada vez mais. Sempre alguns passos à frente.

Lançamento da Roche em outubro de 2025

Letícia Martins: Como estão os investimentos em pesquisa e desenvolvimento?
Carlos Martins: Nos últimos anos, a Roche é a empresa que mais investe em P&D na área da saúde, e com métodos super inovadores, diferentes. Isso se reflete em um pipeline de inovação muito forte. Criamos, por exemplo, o Instituto Organoides, que produz órgãos simulados (como rins, pâncreas, fígados e pulmões) para poder testar medicamentos sem o uso de animais. O teste simula quase 80, 90% do que é um órgão real. Isso é sustentabilidade, e a Roche tem a consciência dessa necessidade de sustentabilidade.

A chegada do novo sensor preditivo ao Brasil simboliza um marco para a comunidade azul. Mais do que acompanhar a glicemia em tempo real, a tecnologia aponta para o futuro do (auto)cuidado em um modelo em que o paciente tem quase o total controle nas mãos e pode agir antes que algo aconteça. A cura do diabetes ainda não existe. Mas a tecnologia está aí para ajudar a viver cada vez mais e melhor com o manejo correto da doença.


*Priscila Horvat é jornalista com foco em saúde e integra a equipe da Momento Diabetes.

Compartilhe