Por Priscila Horvat*
Diagnosticada com obesidade grau elevado, a empresária Natasha Barbosa Santos e Freitas, de 47 anos, transformou o choque de um diagnóstico de 153 kg em um projeto de vida, utilizando sua trajetória para conscientizar sobre a obesidade como doença crônica e combater a romantização do problema.
A jornada que Natasha percorreu com a obesidade não foi um caminho fácil, mas um processo de descoberta, erros, aprendizados e, finalmente, de protagonismo, como ela mesma acredita. Tentou diversos tratamentos ao longo da vida, mas a virada de chave aconteceu em 2019, quando buscou ajuda da endocrinologista e criadora do projeto Médicos na Cozinha, Dra. Tassiane Alvarenga.
Moradora de Passos (MG), Natasha relata que levou um susto ao descobrir, no consultório, os 153 kg, um número que, por muito tempo, foi mascarado pela crença de que estava “saudável” enquanto os exames de rotina não apresentassem alterações graves. “Eu tinha um desfoque da minha própria imagem. Pesava em balanças de farmácia, que tinham um limite, e acreditava estar na casa dos 120 kg. Quando a médica me pesou e disse ‘153 kg’, quase caí dura”, relembra.
O pré-diabetes e o mito do “obeso saudável”
A experiência de Natasha representa um mito comum: o do “obeso saudável”. Por anos, ela acreditou que, por não ter sintomas óbvios, sua saúde estava bem, apesar do peso. Mas, naquela consulta, o que parecia ser apenas uma questão de peso se mostrou um quadro de saúde complexo com o diagnóstico: pré-diabetes, triglicérides altos, hipertensão e gordura no fígado.
“Quando você está no auge da obesidade, você cria uma casca. Ou você é o gordo engraçado, que aceita as piadas, ou se tranca no seu mundo. Eu já fui essa pessoa, e sei como é fingir alegria para estar no meio social”, desabafa.
Para ela, entender que a obesidade não é um defeito de caráter, mas uma doença crônica, foi o passo mais importante. “A obesidade é uma das doenças mais incompreendidas. O gordo não é preguiçoso, ele é doente. Quando você toma consciência de que precisa tratar isso pelo resto da vida, e não apenas para caber em uma roupa ou cumprir um padrão estético, tudo muda”, afirma.
A armadilha da “pílula do ‘já tô bom'”
O tratamento, que contou com o uso de medicações com semaglutida, também chamadas de canetas emagrecedoras, trouxe resultados rápidos no início. No entanto, o caminho teve tropeços. Natasha admite que, ao ver a balança descer e a saúde melhorar, cometeu o erro que ela chama, no melhor estilo de linguagem mineiro, de “pílula do já tô bom” que, em outras palavras, significa fazer a suspensão do tratamento por acreditar que já estava curada. Ou seja, ela própria se “deu alta”.
“O medicamento é fundamental, mas não faz milagre sozinho. Quando suspendi, deixei os hábitos saudáveis de lado e o reganho de peso foi inevitável, agravado por perdas familiares significativas na mesma época”, explica, contando que ganhou 20 kg nesse período. Após retomar o tratamento com a Dra. Tassiane, Natasha entendeu que a manutenção é tão importante quanto o início do processo.
Luta psicológica
Natasha conta que um dos problemas pessoais que ela enfrentou (e que muita gente que vive com a obesidade entende) é o food noise, a sensação de estar o tempo inteiro pensando na comida. “Comida era tudo pra mim. Acordava pensando no que eu ia comer no café da manhã. Enquanto estava na mesa de café, já pensava no que eu ia almoçar. Ia trabalhar já pensando no jantar”, relembra. “A obesidade afeta tudo. A autoestima, o psicológico, a vontade de viver. Quem é obeso passa por constrangimentos o tempo todo”.
Ela acredita que o tratamento ajudou até nessa parte psicológica. “A semaglutida me ajudou e me ajuda demais diminuindo o food noise. Hoje eu já não penso mais em comida o tempo todo. Eu vou pensar na comida só na hora que eu estou realmente com fome. O medicamento e o tratamento com a Dra. Tassiane foi o casamento perfeito para mudar tudo isso”, conta.
Influência para o bem
Natasha conseguiu um feito incrível para si mesma: saiu do manequim 60 para o 44 e, à medida que emagrecia, também ia percebendo que sua mudança de vida gerava um efeito em cascata. O que começou com convites para promover lojas locais transformou-se em uma carreira como influenciadora digital. Hoje, sua missão vai além da estética: ela usa sua voz para alertar contra a romantização da obesidade nas redes sociais.
“Nunca levantei a bandeira de que ‘todo corpo é normal’ a ponto de ignorar a doença. A obesidade acarreta mais de 240 outras enfermidades. Não romantizem. Se existem ferramentas médicas disponíveis, por que não usar?”, questiona.
Hoje, Natasha celebra a conquista de uma vida mais ativa e equilibrada, ao lado do marido, que acabou aderindo ao tratamento, já que também enfrenta a obesidade. Para ela, a semaglutida tornou-se uma aliada, tanto na perda de peso quanto no controle dos impulsos e na melhora da qualidade de vida, incluindo o manejo dos sintomas da pré-menopausa.
“Eu entrei na pré-menopausa, e tem toda uma dificuldade extra, mais um combo de mulher! Essa fase traz dificuldade com a perda de peso, aparece aquela barriga indesejável, o humor muda, tem dores no corpo, dor de cabeça, insônia e tudo mais. E por incrível que pareça, a semaglutida me ajuda nisso também”, comemora. “Hoje, meu maior medo é voltar a ser quem eu era: uma pessoa triste que usava uma máscara. O que eu faço hoje é um trabalho de formiguinha, uma lavagem cerebral necessária para mostrar a importância de cuidar da saúde”.
Para Natasha, a maior transformação não foi apenas física. “Hoje eu consigo olhar para mim de outra forma. Voltei a ter qualidade de vida”. A empresária acredita que ainda existe muita desinformação sobre obesidade. “A pessoa obesa não é preguiçosa, não é sem vergonha. Ela é doente e precisa de acolhimento”, afirma a influencer, que relata também que gostaria que as pessoas compreendessem melhor o que é viver com obesidade.
* Priscila Horvat é jornalista com foco em saúde e integra a equipe da Momento Diabetes.



