Por redação*
O diagnóstico de diabetes tipo 1 costuma chegar de forma abrupta. Uma sede que não passa, idas frequentes ao banheiro, perda de peso sem explicação, cansaço intenso. Em muitos casos, os sintomas aparecem em crianças e adolescentes, pegando famílias de surpresa. Mas o diabetes tipo 1 também pode surgir na vida adulta, exigindo uma adaptação rápida a uma rotina que passa a incluir monitoramento constante da glicemia, aplicação de insulina e atenção diária à saúde.
Diferentemente do diabetes tipo 2, o tipo 1 não está relacionado ao excesso de açúcar, sedentarismo ou alimentação inadequada. Trata-se de uma doença autoimune em que o próprio organismo ataca as células do pâncreas responsáveis pela produção de insulina, hormônio essencial para que a glicose seja usada como fonte de energia pelo corpo.
O diagnóstico precoce é muito importante para o sucesso do tratamento, mas a maior dificuldade é detectar a doença em crianças com menos de 1 ano. Como elas não falam, os pais precisam ficar atentos aos sintomas. “Tenho pacientes crianças que ficaram diabéticas no período neonatal, com menos de um mês de vida”, explica o Dr. Israel Diamante Leiderman, endocrinologista pediátrico, que trabalhou durante 20 anos na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e é fundador da Clínica Spazio, em São José dos Campos (SP).
Sintomas do diabetes tipo 1
Os pais devem estar atentos a alguns sinais que podem indicar diabetes tipo 1. Uma sede intensa e fora do habitual é um dos principais alertas. Em bebês, isso pode aparecer como uma busca exagerada por água, muitas vezes maior até do que pelo leite materno. Outro indício importante é a boca constantemente seca e o aumento expressivo do volume de urina, fazendo com que as fraldas fiquem frequentemente encharcadas e precisem ser trocadas várias vezes ao dia.
“Geralmente o diagnóstico já vem até meio tarde, porque ninguém pensa que uma criança tão pequena possa ficar com diabetes”, explica o Dr. Israel, especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem).
O mesmo acontece com crianças menores de 5 anos, que além de beber muita água, podem ficar constantemente irritadas. Outro ponto que deve ser observado é quando a criança deixou a fralda e já tem controle urinário, mas de repente começa a urinar muito, inclusive na roupa e na cama.
Ou ainda, se dormia a noite inteira e passa a acordar várias vezes para beber água ou ir ao banheiro: também pode ser sinal de diabetes.

Dr Israel Leiderman é entrevistado pela jornalista Letícia Martins, editora da Momento Diabetes
O que é cetoacidose diabética e o que fazer nesses casos?
Como os sintomas, apesar de clássicos, não são tão perceptíveis no dia a dia, quando a criança chega ao consultório médico geralmente o diabetes já está em um estado mais severo. A maioria dos casos já chega em um quadro de cetoacidose diabética, ou seja, o corpo, por falta de insulina, começa a usar gordura como fonte de energia, produzindo corpos cetônicos, que tornam o sangue ácido.
“Quando a água é consumida em excesso, ela é puxada para a corrente sanguínea e eliminada pelo rim. A criança começa a urinar demais e fica desidratada. A desidratação leva à diminuição do pH, tornando o sangue ácido”, explica o Dr. Israel.
E não é só isso. Às vezes, a própria acidez do sangue faz com que a criança vomite e perca mais líquido ainda. Muitas vezes chega no pronto-socorro achando que é uma virose gastrointestinal.
É preciso muita atenção aos sintomas pois, neste quadro, se não há diarreia e é percebido um hálito de maçã (quando a acidez gera os corpos cetônicos), a hipótese de diabetes deve ser analisada.
“A criança está tão desidratada que chega em choque no pronto-socorro, ou seja, não consegue manter a pressão sanguínea suficiente para o coração bombear sangue para o resto do corpo. Aí começa a baixar o nível de consciência, até que ela entra em coma”, explica o Dr. Israel.
Em casos mais graves, ele explica, a criança chega com tanta acidose, que é preciso colocá-la em ventilação mecânica para que ela consiga eliminar pela respiração o CO2 (dióxido de carbono) do sangue para diminuir o HCO3 (ácido carbônico).
É uma condição muito grave, que exige indicação de tratamento na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Mesmo com o atendimento de emergência, 30% dos casos podem evoluir para o óbito.
O Dr. Israel conta um caso em que uma criança estava com um nível de glicemia muito acimada do esperado. “Eu guardei no consultório o exame dela, que chegou com 3.200 mg/dL de glicemia. Ela teve um edema cerebral, mas como o crânio não era fechado, devido às fontanelas (moleira), aguentou essa expansão do cérebro. Eu dei alta do hospital para essa criança com uma glicemia de 800, porque estava super bem, pulando”, relata o endocrinologista pediátrico.
O tratamento, no entanto, não foi fácil. Foram necessários 10 dias de internação para diminuir a concentração de açúcar no sangue de maneira gradual e segura para a paciente receber alta.

Mas o que causa diabetes em crianças?
Não existe apenas uma causa para o desenvolvimento do diabetes, ou seja, é uma condição multifatorial. Pode acontecer por uma sensibilidade genética associada a um uma doença autoimune, quando os anticorpos atacam as próprias células do pâncreas que produzem insulina, por exemplo.
Ou, ainda, pode ser desencadeada por um vírus. Neste caso, quando a pessoa tem uma virose, o corpo produz anticorpos para atacar essa doença. Por um erro no sistema de defesa, esses anticorpos começam a atacar as células do pâncreas.
Em casos raros, o surgimento do diabetes tipo 1 pode estar associado a um trauma. Uma situação que gera aumento do cortisol, que é o hormônio do estresse, que eleva a glicemia. Neste caso, a situação em si não desencadeia a doença: ela já estava lá, mas com o estresse, os sintomas começam a aparecer.
Por isso mesmo é que consultas periódicas e exames de rotina são tão importantes. O tratamento envolve aplicação da insulina, monitorização da glicemia e hábitos saudáveis de vida.
Confira a entrevista completa do Dr. Israel Diamante Leiderman no canal do YouTube da Momento Diabetes aqui.
* Raquel Ferreira é jornalista com foco em saúde e integrou a equipe da Momento Saúde Editora