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Denise Reis Franco Denise Franco sabe tudo sobre as tecnologias do tratamento do diabetes

Dona de uma agenda intensa, doutora Denise Franco sempre encontra tempo para atender seus pacientes com dedicação, cuidado e amor.

Bianca Fiori | 11/01/2020

Denise Franco sabe tudo sobre as tecnologias do tratamento do diabetes

Uma das endocrinologistas mais renomadas do Brasil e umas das pioneiras a introduzir em seus pacientes a terapia com bomba de infusão de insulina, Denise Reis Franco é um poço de sabedoria e um mar de simpatia. Com alegria e boa vontade, ela dá conta de uma rotina intensa, que envolve atendimento no consultório, viagens a trabalho, palestras em eventos nacionais e internacionais, pesquisas para a melhoria do tratamento do diabetes, além de dar entrevistas e treinamentos para profissionais de saúde.

Apesar da agenda apertada, ela nunca deixa de atender pacientes que, assim como eu, ligam ou mandam mensagens desesperadas quando a glicemia não entra nos eixos. Ela é o anjo da guarda de muitos deles e já salvou alguns em momentos mais tensos. Por isso, é com alegria a médica que veste a camisa do diabetes foi apresentada na 7 º edição da Momento Diabetes, confira a entrevista.

 

Momento Diabetes: Há quanto tempo se dedica ao diabetes?

Dra. Denise Franco: Sou médica desde 1985 e terminei a especialização em endocrinologia em 1989. Comecei a focar na área de diabetes em 1994, quando atendi meu primeiro paciente no consultório. Essa experiência foi tão legal que mudou minha vida.

MD: Por que escolheu a endocrinologia?

Dra. Denise: Difícil responder essa, pois durante a faculdade gostava de várias matérias. Porém, eu tinha uma tia que era bióloga e imunologista e eu achava isso demais. Um dia, comentei que queria ser igual a ela para poder trabalhar com pesquisa, mas minha tia me desaconselhou, explicando que era muito difícil, naquela época, fazer imunologia como bióloga e me orientou a estudar medicina. Pesquisei o assunto e vi que a endocrinologia tinha muito a ver com a área de imunologia e foi então que escolhi minha especialidade.

MD: Alguém da sua família tem diabetes?

Dra. Denise: Não há ninguém na minha família com diabetes. A minha escolha pela endocrinologia, sem sombra de dúvida, tem muito mais a ver com a história da minha tia, conforme contei acima.

 

MD: O que é mais gratificante para você em atender pacientes com diabetes?

 

Dra. Denise Franco: Tratar doença crônica não é uma tarefa fácil. Por isso, acho que o mais gratificante é saber que, às vezes, com atitudes simples, podemos melhorar a qualidade de vida do paciente e de seus familiares. Isso me ajuda a olhar a medicina de uma forma mais humana e essa possibilidade me dá muito prazer.

MD: E qual é a parte mais estressante desse trabalho?

Dra. Denise: Reconhecer que nem sempre o controle do diabetes depende só da gente. Várias questões estão envolvidas no sucesso do tratamento, por exemplo, em qual fase da vida a pessoa se encontra, se está disposta a abraçar a terapia, se conta com o apoio da família etc. Algumas vezes, o médico está à disposição para ajudar, mas nem sempre o paciente aceita a ajuda ou está pronto para a mudança. Temos que aceitar o tempo de cada um, afinal as metas são deles, não nossas. De qualquer forma, procuro caminhar ao lado do paciente, envolvê-lo em todo o processo e mostrar que estarei sempre presente quando ele precisar.

MD: Na sua opinião, qual foi a maior mudança na maneira de tratar o diabetes desde a sua formação médica?

Dra. Denise: Sou da época dos grandes estudos, como o DCCT e o UKPDS, que mostraram a importância do tratamento intensivo tanto do diabetes mellitus tipo 1 (DM1) quanto do tipo 2 (DM2). Acredito que o grande marco no tratamento desses pacientes foi a chegada do análogo de insulina de longa duração (Glargina) e da insulina ultrarrápida (Humalog). Basta perguntar para uma pessoa com DM 1 que tem um pouco mais de idade como era vida dela antes da Glargina, quando precisava fazer duas, às vezes, três aplicações diárias de NPH e ainda ter flutuações glicêmicas, isto é, altos e baixos da glicemia. Hoje, esse mesmo paciente faz apenas uma picada da insulina Glargina por dia e alcança um controle melhor do que antes.

 

MD: O sistema de infusão de insulina também pode ser considerado uma revolução no tratamento?

 

Dra. Denise Franco: Com certeza! A bomba de infusão com sensor de glicose mudou bastante a rotina dos pacientes, possibilitando um tratamento mais flexível e dinâmico. A chegada do FreeStyle Libre é outro marco importante. Tirar ou diminuir a quantidade de testes de ponta de dedo de quem tem a condição sem sombra de dúvida é aumentar a qualidade de vida desses pacientes. No caso dos portadores de DM2, o destaque vai para os novos medicamentos, que permitem uma glicemia mais estável com menor risco de ganho de peso e de hipoglicemia.

MD: Você acredita que estamos perto da cura?

Dra. Denise: Essa pergunta me lembra uma colega endocrinologista que foi diagnosticada com diabetes tipo 1 quando era criança. Ela conta que escutava os médicos dizerem que a cura viria em cinco anos, mas já faz vários cinco anos e nada! Brincadeiras à parte, hoje ela tem uma qualidade de vida muito melhor do que tinha quando era pequena. Além disso, há muito mais acesso à informação. Na época em que me formei, quando havia uma descoberta no tratamento do diabetes ou uma medicação nova, a notícia não era partilhada rapidamente com outras pessoas. Com a globalização, a troca de experiências e conhecimento tornou-se um processo ágil, o que, na minha opinião, permite que estejamos mais próximos da cura. Não é tão fácil quanto se imagina, mas estamos trabalhando para isso.

MD: Como será o tratamento do diabetes tipo 1 no futuro?

 

Dra. Denise Franco: Embora não haja acesso para todos, a tecnologia ainda tem muito a crescer com a chegada das bombas de infusão que suspendem a insulina quando há risco de hipoglicemia. Em um futuro não muito distante, teremos a chegada do pâncreas artificial. Contudo, acredito que o suprassumo no tratamento estará relacionado aos testes de glicemia de ponta dedo, que serão substituídos pelos sensores de glicose. Desta forma, os pacientes saberão o que ocorrem em seu corpo. As novas insulinas, ainda mais rápidas e inteligentes, que fazem o ajuste de acordo com a concentração de glicose de cada um, também possibilitarão um futuro diferente para quem tem DM 1. Acredito que estamos caminhando para a cura. Caso ela não ocorra, podemos esperar pela preservação do Peptídeo-C, que é o local onde ficam as reservas de insulina.

MD: Qual o seu conselho para quem acabou de descobrir o diabetes ou tem um parente com a disfunção?

Dra. Denise: Procurar sempre se informar sobre o diabetes é essencial. Claro que ninguém quer ter uma doença como essa, aliás, como nenhuma, mas se ela apareceu, a melhor forma de enfrentá-la é com conhecimento. Saber lidar com a doença é fundamental, mas isso é um processo. Para ajudar nesse caminho, é importante se cercar de pessoas, associações, grupos de pacientes e de famílias com diabetes. Desta forma, o dia a dia fica mais leve. Apesar de ser uma doença rara, a família e o paciente precisam entender de que não estão sozinhos e que a vida pode ganhar uma cor diferente quando dividimos nossos problemas com outras pessoas que possuem a mesma rotina. É possível ter uma vida doce, depende apenas de como a gente vai encarar.

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