Por Priscila Horvat*
Quando a profissional de Educação Física Carla Prisco decidiu que correria 42 maratonas antes de completar 42 anos, o desafio parecia ousado até para atletas experientes. Para alguém com diabetes tipo 1 (DM1) desde a adolescência, a meta ganhou um peso ainda maior. No dia 30 de novembro de 2025, dois dias antes de completar 42 anos, Carla cruzou a linha de chegada da maratona que simbolizava o fim de um ciclo iniciado em 2016.
O feito ocorreu em Atibaia (SP), ao lado de amigos, familiares e corredores que testemunharam mais do que uma meta batida: a realização de um sonho conquistado passo a passo, com disciplina, cuidado e propósito. Afinal, estamos falando de correr 42 maratonas!
Carlinha, como é carinhosamente chamada por seus amigos e familiares, recebeu o diagnóstico aos 16 anos, após um período marcado por sintomas clássicos da condição: perda rápida de peso, sede excessiva, fraqueza intensa e câimbras. Os pais a levaram ao médico para averiguar o que poderia ser e o exame de sangue confirmou o diabetes.
A notícia abalou toda a família, pois era uma época de pouco acesso à informação, como relembra o pai, José Carlos Gomes: “Passamos por várias desinformações. Todo mundo era leigo”. Segundo ele, o excesso de restrições prescritas nos primeiros atendimentos gerou insegurança. “Minha esposa chegou a dizer aos médicos: pelo que vocês estão falando, ela vai acabar morrendo de fome”, contou, tamanha a restrição imposta à alimentação de Carla na época.
A mãe de Carla, Ivone da Silva Gomes, recorda que o mais difícil foi entender que a filha poderia, sim, ter uma vida normal. “Os médicos só falavam o que não podia e as consequências. Não falavam como evitar, como viver”. A mudança veio com o apoio da ADJ.
O cenário começou a mudar quando Carla participou de uma palestra no Hospital Cruz Azul, em São Paulo, e conheceu a ADJ Diabetes Brasil. “Passei a frequentar a ADJ e descobri que eu podia ter uma vida normal mesmo tendo diabetes”. Foi na associação de apoio a pacientes e familiares com diabetes localizada na capital paulista que Carla e a família aprenderam sobre contagem de carboidratos, conheceram profissionais especializados e que ela participou de grupos de jovens. E, assim, começou a construir uma relação mais equilibrada com a condição.
Para Ivone, a corrida revelou ainda mais a força da filha. “Ela é muito determinada. Quando quer, vai e faz acontecer”. O orgulho transparece ao listar os papéis que Carla ocupa hoje. “Tenho muito orgulho da filha, da mulher, da mãe, da esposa, da atleta e da profissional que ela é”.
Foi também nesse ambiente que a corrida entrou em sua vida. O primeiro desafio foi uma prova de 5 km, em um revezamento. A partir dali, a paixão só cresceu. Carla avançou para distâncias cada vez maiores, tornou-se ultramaratonista, encarou provas de até 75 km e representou o Brasil em uma maratona internacional nos Estados Unidos, pelo projeto Global Heroes Twin Cities Marathon, promovido pela Medtronic.
Em 2016, veio a primeira maratona oficial e, com ela, o início do projeto que marcaria sua trajetória esportiva. “Em 2017, eu tinha o projeto de correr 42 maratonas até os meus 42 anos. E esse dia chegou. São 42 histórias de superação, de boas glicemias, de hipoglicemias, de hiperglicemias, de muita superação e controle”, disse Carla em entrevista para a jornalista Letícia Martins no dia 30 de novembro, quando conquistou sua meta.
Família, amigos e apoiadores da atleta
Ao longo do caminho, a chegada de dois filhos não interrompeu o sonho. Pelo contrário: tornou-se mais um elemento de motivação. Esposa, mãe, professora de Educação Física e ultramaratonista, Carla sempre fez questão de mostrar que o diabetes exige cuidado, mas não impede planos ambiciosos.
Ao seu lado esteve, desde o início, o marido, Guilherme Prisco, a quem ela faz questão de mencionar como apoio e base para tornar tudo possível. “Ele sempre me apoiou, sempre me sustentou, cuidou das crianças, muitas vezes pagou também o rolê”, lembra, entre risos. Quem também foi torcedor das linhas de chegada foi o treinador Emerson Bisan, que acompanha Carla há 18 anos. “Quando a Carlinha fez a primeira maratona, em 2016, ela foi a melhor maratonista da equipe”, relembra. “A gente combinou que, quando ela completasse 42 anos, ela faria a quadragésima segunda maratona. E é hoje. A gente fecha essa aventura de nove anos”, comemorou.
Ao completar as 42 maratonas, a atleta fez questão de agradecer à comunidade que a acompanhou ao longo dos anos. “Diabetes não limita ninguém. Pelo contrário, ele nos impulsiona a ser alguém melhor todos os dias”. E deixou uma mensagem direta a quem também convive com a condição: “Independentemente do tempo que você ache que precisa, não desista nunca. Os sonhos a gente vai realizando, sempre com calma e respeitando cada processo”, finaliza.
A pergunta feita no final da matéria publicada em 2017 – “Alguém duvida que ela vai conseguir?” – (veja a foto abaixo) tem resposta certa. Carla conseguiu seu objetivo e transformou os quilômetros corridos em prova viva de que planejamento, informação e persistência podem levar muito além da linha de chegada.
*Priscila Horvat é jornalista com foco em saúde e integra a equipe da Momento Diabetes.













