Por Priscila Horvat*
Durante o XXV Congresso Brasileiro de Diabetes de 2025, realizado entre os dias 29 e 31 de outubro na capital fluminense, um dos destaques do espaço Projetos Independentes foi o trabalho apresentado pela nutricionista Carolina Vasconcellos, coordenadora do Projeto de Extensão “Cuidados a Gestantes com Diabetes”, desenvolvido no Ambulatório de Diabetes na Gestação da Policlínica Universitária Piquet Carneiro, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), um serviço oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Composto pela equipe médica, enfermagem e residentes, o projeto nasceu em 2023 com um foco simples e poderoso: transformar o tempo das gestantes na sala de espera em um momento de educação em saúde. Segundo Carolina, muitas mulheres chegam de diferentes municípios do Rio de Janeiro para atendimento especializado. “Percebemos que aquele tempo ali na sala de espera poderia ser usado para educação em saúde. Porque tudo que a gente tinha que conversar com aquelas gestantes, às vezes, não cabia só dentro da consulta”, conta.
Desde então, a equipe passou a usar o auditório e a sala de espera para encontros educativos, dinâmicas e rodas de conversa sobre alimentação, metas glicêmicas, importância da atividade física e, especialmente, o papel da amamentação na prevenção do diabetes tipo 2, tanto para a mãe quanto para o bebê.
“O que buscamos no projeto é reforçar aquilo que é falado em consulta: a importância da alimentação, porque escolher ou priorizar um alimento em vez do outro, qual a meta glicêmica que é preciso alcançar, já que na gestação é preciso manter uma glicemia mais baixa naquela mulher que já tinha diabetes”, explica. A observação das dúvidas mais frequentes nas consultas é que definiu o formato dos encontros. “Durante as consultas, percebemos quais eram as dificuldades mais comuns, onde estavam as pedrinhas do nosso sapato”.
Amamentação: proteção natural para mãe e bebê
Com o passar dos encontros, a equipe notou que muitas gestantes desconheciam o impacto direto da amamentação. “Percebemos que elas não tinham ideia do impacto positivo da amamentação no controle glicêmico e na prevenção de um diabetes tipo 2. Como recebemos, majoritariamente, mulheres com diabetes gestacional, que muito provavelmente após a gestação vão ter esse quadro revertido, mas elas estão em risco de desenvolver diabetes no futuro, então: o que fazemos é para que essas mulheres possam sair dali já sem o diagnóstico, mas também que elas entendam que algum cuidado é preciso continuar tendo, já que correm maior risco”, afirma Carol.
Além disso, uma parceria com outro projeto de extensão da UERJ garante que, ao menos uma vez por mês, a sala de espera seja dedicada exclusivamente ao tema da amamentação. As orientações incluem desde a importância da “hora dourada” (bebê no colo e oferecimento do seio na primeira hora após o nascimento) até o manejo da amamentação em situações de risco para hipoglicemia neonatal. “Se a gestante sabe isso desde o primeiro momento, ela vai exigir, vai fazer questão de ter a hora dourada”, afirma.
Resultados com as gestantes
O projeto já coleciona números relevantes. Em 2024, foram 64 gestantes atendidas durante 17 encontros temáticos. Além disso, a equipe de profissionais envolvidos desenvolveu folhetos educativos sobre amamentação, metas glicêmicas, planejamento reprodutivo e cuidados essenciais para mulheres com diabetes tipo 1 e 2 que desejam engravidar.
A expansão do projeto também foi possível graças à chegada de uma bolsista da área de nutrição. “Em 2024, ganhamos, inclusive, uma bolsa para poder ampliar e conseguir atingir coisas maiores”, explica Carolina. Esse apoio permitiu a criação de um canal de WhatsApp, que se tornou uma via direta de comunicação com as gestantes, compartilhando informações seguras, materiais usados nos encontros, lembretes sobre o pré-natal e até receitas para tornar o dia a dia da grávida mais saudável e saboroso.
O resultado do trabalho desenvolvido também pode ser visto com a mudança de hábitos das mulheres atendidas. “No sentido da alimentação, geralmente a gestante é uma das pacientes mais engajadas, porque ela está preocupada com o filho, então esse é o momento em que ela aceita fazer mudanças. É uma janela de oportunidade”, conta a nutricionista.
Fake news: o maior desafio
Entre os temas trabalhados, o que mais exige atenção é a prática de exercícios, ou a falta dela. Apesar de a gestante ser geralmente engajada nas mudanças alimentares, o medo de complicações ainda afasta muitas delas da atividade física. Isso se deve, também, às fake news, as falsas informações que são encontradas na internet e a disseminação delas pelo famoso “boca a boca”. “Existe muito tabu ainda sobre o exercício: dele ser abortivo, de causar uma complicação. E como essas mulheres são gestantes que ganham um rótulo de alto risco, esse medo é dobrado”, conta a nutricionista.
Para enfrentar esse desafio, o grupo estabeleceu uma parceria com o Instituto de Educação Física e Esportes da UERJ, que oferece aulas supervisionadas duas vezes por semana voltadas exclusivamente para gestantes “para continuar o ciclo da educação”, completa Carolina.
Cuidado contínuo
Outra frente importante do projeto é o acompanhamento de mulheres com diabetes que engravidam sem planejamento adequado, um cenário frequente no ambulatório. “Elas engravidavam sem controle glicêmico adequado, sem planejar, sem iniciar ácido fólico”, relata Carol. Para contornar essa situação, a equipe também desenvolveu um material educativo explicando o papel do ácido fólico, a importância da hemoglobina glicada em níveis ideais e onde buscar orientação reprodutiva pelo SUS.
O trabalho coordenado por Carolina demonstra como ações simples, como transformar a sala de espera em espaço educativo, podem gerar impacto profundo na saúde de gestantes e recém-nascidos. A profissional detalha, ainda, que os materiais e folhetos utilizados trazem informações básicas, mas que precisam ser reforçadas. “Por incrível que pareça, às vezes, o ‘óbvio’ precisa ser dito. Então fizemos folhetos que falam justamente do básico”, finaliza a nutricionista. E é exatamente esse “óbvio”, quando explicado com carinho e cuidado, é que muda trajetórias de famílias inteiras.
Saiba mais sobre o projeto:
- Policlínica Universitária Piquet Carneiro/UERJ
- Entre no canal do projeto no WhatsApp: Cuidados a Gestantes com Diabetes
*Priscila Horvat é jornalista com foco em saúde e integra a equipe da Momento Diabetes.






