Apaixonada pelo atendimento ambulatorial, Ticiane Gonçalez Bovi desistiu da ideia de ser engenheira e se formou em nutrição com foco total no paciente com diabetes

Quando resolvemos lançar a revista Momento Diabetes no mercado, convidamos alguns profissionais de saúde para fazer parte do nosso conselho consultivo. Escolhemos os nomes levando em consideração o trabalho e a dedicação de cada um deles no atendimento a pessoas com diabetes.

Um dos primeiros nomes que surgiram foi o de Ticiane Gonçalez Bovi, uma jovem nutricionista com dez anos de formação e uma bagagem de peso nessa área. A vida profissional de Ticiane é repleta de doçura. Ela atende pacientes em uma clínica em Campinas (SP) e em Itajaí (SC), ministra palestras, workshops e aulas em cursos de pós-graduação, além de ensinar nutricionistas, estudantes de nutrição, pacientes e familiares a usar o método de contagem de carboidratos.

A pesquisa de doutorado dela tem como base a investigação de doenças cardiovasculares em pacientes com diabetes. Ela ainda colabora em projetos de outros pesquisadores, todos ligados ao mundo do diabetes. Ou seja, ela respira diabetes o dia inteiro e faz isso com uma alegria contagiante. “A verdade é: se for para falar de nutrição em diabetes, pode me chamar que eu vou para qualquer lugar”, declara.

Saiba mais sobre Ticiane Bovi.

Momento Diabetes: O que motivou você a ser nutricionista?

Ticiane Bovi: A nutrição entrou na minha vida de uma maneira muito surpreendente, por meio de uma professora de matemática do cursinho. Um dia, em sala de aula, ela contou que uma das filhas era nutricionista e falou com tanto carinho e orgulho da profissão dela, que fiquei interessada e decidi não prestar vestibular para Engenharia Ambiental, minha opção na época. Gentilmente a filha da minha professora me recebeu no consultório dela. Levei todas as minhas dúvidas anotadas em um caderninho. Parecia uma entrevista! Saí de lá encantada e pesquisei mais a fundo sobre a profissão. Percebi que era linda e promissora e fiz o vestibular. Hoje, não consigo me imaginar em outra área!

MD: Por que escolheu atender pessoas com diabetes?

Ticiane: Sempre digo que não fui eu que escolhi o diabetes. Foi ele que me escolheu. A princípio pensava em atuar na área de Nutrição em Nefrologia, mas todos os estágios e trabalhos que apareciam me levavam para o diabetes. Assim que me formei na faculdade, passei na prova da Especialização em Doenças Crônicas no Atendimento Ambulatorial pelo Hospital das Clínicas da Universidade de Campinas (Unicamp), onde atuo até hoje, e lá comecei a pesquisar profundamente o diabetes, que é uma das doenças crônicas de maior incidência e prevalência do nosso tempo. Também tive uma supervisora com diabetes, ou seja, o meu dia era repleto de doçura! Ao término da especialização, iniciei o Mestrado e atualmente faço o Doutorado nesta mesma linha.

MD: Você se considera uma apaixonada pelo atendimento ambulatorial?

Ticiane: Sim! Gosto demais de interagir com os pacientes. Aliás, eles também foram minha motivação, pois muitos chegavam até mim com um conceito retrógrado sobre o tratamento, especialmente em relação à terapia nutricional. É comum as pessoas se privarem de uma alimentação de qualidade e variada por puro desconhecimento e falta de orientação. Na graduação, o diabetes não é estudado profundamente, por isso, tive de buscar conhecimento além daquele que me foi ensinado. Assim, uni duas das coisas que eu mais gosto de fazer: ensinar e poder transformar a vida de muitas pessoas com o conhecimento que a nutrição me proporciona até hoje.

MD:Quais são os principais desafios de quem têm diabetes?

Ticiane: Atendo pacientes de todas as faixas etárias e percebo que o diabetes é uma doença de grandes demandas, seja na infância ou na vida adulta. Assim, cada faixa etária tem suas características, necessidades e desafios próprios. As maiores preocupações dos pais, por exemplo, especialmente de filhos muito pequenos, estão relacionadas ao manejo da dose de insulina, à proporção carboidrato/insulina e às ocorrências de hipoglicemias.

A alimentação também é um grande desafio, principalmente as refeições na escola, pois nem sempre a instituição de ensino dispõe de funcionários para acompanhar o aluno com diabetes mais de perto e os pais se culpam por não estarem presentes o tempo todo. Quando o diagnóstico acontece na adolescência, acredito que aceitação é o principal desafio. É uma fase em que ser diferente não é legal e muitos escondem o diabetes dos amigos, dos professores e de quem convive com eles, prejudicando o tratamento. Em função disso, acabam omitindo doses de insulina, não fazem a monitorização adequadamente e são resistentes às orientações nutricionais, pois acreditam que tudo será proibido.

MD: E no caso dos adultos?

Ticiane: O desafio dos adultos está na quebra de paradigmas e crenças sobre a disfunção. Eles geralmente carregam uma história marcada por situações de estresse e esgotamento físico e mental por causa das demandas do diabetes. Estes pacientes já passaram por diversos tratamentos e profissionais de saúde. Alguns estão desiludidos com promessas falsas e tratamentos restritivos ou malconduzidos.

Além disso, há a cobrança social. Muitos deles não contam que têm diabetes para os colegas de trabalho, chefes ou em entrevistas de emprego por medo de serem considerados incapacitados para a tarefa. Existe também um receio grande de faltar ao trabalho por conta das consultas ou ter de fazer a monitorização da glicemia na empresa e receber olhares de desaprovação. Realmente, ter diabetes não é fácil.

Ser resiliente e enfrentar todas as demandas da sociedade e da própria doença também não é nada fácil. Por isso, contar com o apoio da família e dos profissionais que os atendem é fundamental.

Como você lida com tudo isso nos consultórios e hospitais?

Ticiane: Com muita paciência! Tanto no caso das crianças quanto dos adolescentes, o resultado é obtido através de um processo de construção baseado em muita confiança e conversas sinceras. Cabe a mim, como profissional da saúde, atender às necessidades de cada paciente e esclarecer todos os mitos. Para isso, faço uso de instrumentos propostos pela Terapia Cognitivo Comportamental e instrumentos da entrevista motivacional.

Apesar das campanhas de prevenção, os casos de diabetes só aumentam. Como você avalia esse crescimento?

Ticiane: Em relação ao diabetes tipo 1, ainda há muito a se descobrir. Existem estudos que investigam os aspectos relacionados ao aleitamento materno, investigação do “start” para alteração do sistema imunológico, entre outras causas. No caso do diabetes tipo 2, podemos identificar vários fatores que contribuem para essa epidemia, como as mudanças comportamentais, por exemplo.

As pessoas trabalham muito e cuidam pouco de si mesmas, fazem menos exercício do que deveriam e se alimentam mal, consumindo em excesso produtos processados e repletos de aditivos, gordura, açúcar refinado e sódio. Todos esses fatores provocaram o aumento do sobrepeso, obesidade, diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares.

A alimentação tem sido deixada de lado?

Ticiane: Sim, parece que ela se tornou um fardo. Cozinhar algo é praticamente impossível atualmente, afinal, ninguém tem tempo. Mas deixar de se alimentar bem pode custar caro à saúde, com o surgimento de outras doenças e complicações.

Em outubro, você apresentou um trabalho sobre diabetes no congresso de psicologia que ocorreu em São Paulo. Qual foi o enfoque?

Ticiane: Este foi um dos trabalhos no qual sou colaboradora. Especialmente para esta apresentação, fui representando a doutora Mônica Sueli Vilela da Mota Silveira, responsável pela pesquisa que buscou avaliar a prevalência de depressão, sintomas depressivos e diabetes distress, isto é, o estresse causado pelas demandas do diabetes. Neste trabalho, identificou-se que pacientes com depressão e diabetes distress possuem pior controle glicêmico, menor adesão ao tratamento e menos empoderamento.

Esta linha de pesquisa mostra que o tratamento do diabetes necessita de uma abordagem multiprofissional, que capacite o indivíduo a entender e agir da melhor maneira possível diante das várias tarefas que a disfunção impõe.

O que significa para você ser conselheira da Revista Momento Diabetes?

Ticiane: Difícil de explicar! É uma mistura de emoção, honra e responsabilidade enormes! É uma felicidade sem tamanho, pois tenho a oportunidade de contribuir para a elaboração de informações de extrema qualidade, que chegam a lugares que talvez eu jamais poderei ir. Significa a chance de fazer a diferença, mesmo estando de longe, e passar mensagens importantes como essa a inúmeros leitores: é possível ter uma relação maravilhosa com a comida e aproveitar tudo de bom que ela tem a oferecer.

Este conteúdo faz parte da edição 08 da revista Momento Diabetes. Compre aqui a sua.