A couch Fabiana Couto convida a refletir sobre nossos próprios limites e como ignorá-los pode sabotar o tratamento e a vida

Por Fabiana Couto*

Não, você não leu o título deste texto errado e eu também não digitei errado.

Eu tenho diabetes e, sim, eu tenho limites. Por mais que seja difícil admitir, estou aqui para te dizer que não sou supermulher, e que apesar dessa condição ser gerenciável e ser possível viver bem com ela, aprendi que para que isso aconteça é preciso que você tenha consciência dos seus próprios limites, os honre e os respeite.

Se você está estranhando o que estou dizendo, eu te entendo. Pois já tive aquele tipo de mentalidade de que sou “imbatível”.  Frases como “o diabetes NÃO me pára, eu vivo SEM limites” já podem ter passado pela sua cabeça, como já passou pela minha. Mas de uns tempos para cá, com mais maturidade e autoconhecimento, percebi que não é bem assim, e que insistir nesse tipo de pensamento pode me machucar, como já me machucou.

Todos nós temos limites, com diabetes ou não, somos humanos e humanos têm limites. Pensando bem, não só os humanos, até mesmo os super-heróis, como o Super-Homem, perde todos seus poderes na presença da tão criptonita.

Talvez esse nosso desejo de sermos invencíveis vem de uma ilusão que tudo pode acontecer com os outros, menos comigo. Essa nossa mania de grandiosidade, de sermos uma potência talvez seja uma tentativa de nos eternizarmos e não termos que lidar com o nosso maior limite: o fato de que a morte um dia chega para todos, e isso é algo sobre o qual não temos o menor poder ou controle.

Mas, afinal, de que tipo de limites estou falando? Distinguir e separar os limites dos medos é muito importante. Um limite pessoal não é um limite imposto nem por si muito menos pelo outro; ele não é imposto, ele simplesmente é.

Por exemplo, a crença que uma mulher com diabetes não pode ser mãe não é um limite, é uma crença, um mito, ou seja, não é verdade. Mas o limite de que ela vai provavelmente terá que se resguardar e deixar de fazer certas coisas que gostaria pelo fato de estar grávida e ter diabetes, é um limite real e não uma crença. Trata-se de lidarmos com a realidade com humildade de que não podemos tudo, mas podemos muita coisa! E que podemos, sim, nos superar, pois os limites se expandem com o passar do tempo, na medida que os respeitamos vamos ganhando um senso de bem-estar e equilíbrio que nos permite vermos alternativas onde antes víamos obstáculos. Porém, para fazermos isso de forma consciente, precisamos lidar com a realidade com compaixão e aceitação.

Lidar com a realidade é a melhor forma que tenho encontrado para viver bem a minha vida com diabetes. Não adianta ignorar aquela hiper, ou fingir por um dia que não tenho diabetes, tampouco achar que posso acompanhar o ritmo dos meus amigos numa viagem, ignorando o horário das refeições e da minha rotina de cuidados. Acreditem, eu já fiz muito isso e posso dizer que não foi o melhor para mim, pois o diabetes não gosta nem aceita ser ignorado. Ele vai te cobrar, e quanto mais você respeitar seus limites, mais liberdade você terá.

Pense bem, existem limites na vida de uma pessoa com diabetes como, por exemplo, a hora de comer, o que comer, a hora para dormir, a hora da atividade física, se vai para uma viagem, como você se organiza, horários que precisa parar e checar a glicemia, entre outras coisas.

Na maioria das vezes, mesmo tendo diabetes, faço tudo que eu quero, mas às vezes não.  Algumas vezes é preciso abdicar de algo em prol de algo maior… a saúde! Preciso estar atenta ao que é melhor para mim e ouvir o meu corpo, ele me diz o que fazer e quando decido ignorá-lo me machuco.

Não sou invencível nem mais forte que o diabetes. Minha força está na minha humildade e respeito pelo diabetes. Não está em vencê-lo, está em acolhê-lo, porque o diabetes é uma parte de mim e quando luto contra ele, estou lutando contra eu mesma.

Diversos termos que nós usamos para falar sobre o diabetes, como “vencer o diabetes” ou “lutar contra o diabetes), são estimulantes, é verdade, mas perigosos também, porque corremos o risco de colocar na nossa cabeça a ideia de que não temos limites e deixar de perceber quando nosso corpo pede uma pausa ou socorro. Achamos que temos que ser mais fortes que o diabetes, mas ele está dentro e não fora de nós e quando tentamos destruí-lo é a nós mesmos que estamos destruindo.

Dialogar e ouvir seu corpo são atitudes muito sábias. Respeitar o seu corpo trará harmonia para viver bem sua vida em relação ao diabetes ou em qualquer outra questão. Na vida, precisamos reconhecer quando atingimos um limite, seja um relacionamento que te faz mal, um emprego que você já não consegue mais suportar, ou uma doença crônica que está pedindo sua atenção.

Com ou sem diabetes, você também tem seus limites. Ignorá-los é iniciar uma guerra interna que apenas uma pessoa perde: você mesma.

Nesse texto eu te convido a refletir sobre quais os limites que você vem ignorando e que podem estar sabotando seu tratamento e sua vida, pois aceitar os limites é aceitar a si mesmo. É se olhar com carinho e respeito, fazendo escolhas que apoiem e contribuam para seu maior bem que é a sua saúde.

Abraços,

*Fabiana Couto mora em São Paulo, é couch de saúde e apresentadora do Canal no Youtube COZY DIABETES MAIS LEVE, que produz em parceria com a nutricionista Martha Amodio. Foi diagnosticada com diabetes tipo 1 aos 13 anos de idade e ministra palestras sobre como lidar bem com a disfunção.